Autopoese    =   Alexandre Dacosta
Texto da curadora Miriam Ash, novembro 2017



Esta exposição reúne parte da produção de poesia visual que o artista realiza desde o começo dos anos 2000. Poemas-objeto, poesias gráficas e vídeos, fazem parte dos livros - [tecnopoética] e ADJETOS - ambos editados pela 7 letras 2011 - e do E-Book autopoese - Editora Lacre - que está sendo lançado nesta mostra.

O modo como Alexandre escova sua poética é de arrancar os dendritos dos neurônios e as pestanas do cérebro. Ele nos dribla todo o tempo com seu olhar de esguelha, nos ludibria no brio de seus títulos e frases enigmatemáticos. Suas placas de aviso: desorientam, suas poesias gráficas: investigam, e seus poemas-objeto: interrogam. Sinto esse verboso visual autoparnasiano, esse “autouniverso” Dacostiano, impregnar nossa alma de intensa busca pela desliteralização. E além das quatro funções da nossa psique - pensamento - percepção - sentimento – intuição - o artista cria uma quinta função: a transplanação - a essência de trans-acender o simbólico.

                     autopoese - a capacidade de fazer a si mesmo.

 

     Transcrevo texto de 1996 que fiz para a exposição “Tabela de Cor” de

     pinturas e esculturas, realizada aqui mesmo no Paço Imperial:

    

     Através de um refrator, Alexandre Dacosta tem uma visão panorâmica da

     criação artística, sem fronteiras de linguagem. Sua obra tem o humor

     e a inteligência que vemos no ator e a poesia melódica e atonal que

     escutamos no compositor e cantor AD. A princípio parecem vários artistas,

     cada um na sua função específica. Após uma anatomização crítica, vemos o

     retrato-falado de um ser único, desdobrando-se em diversos heterônimos,

     como o mercúrio, líquido denso e fascinante, amálgama venenoso de

     temperatura eclética, que não perde sua essência sensível mesmo na infinita

     parte ínfima. E é nesta perícia plena de curiosidade que encontramos um

     artista contemporâneo, onde as regras são desajustadas e as réguas

     ilimitadas.


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DIAGNÓSTICO PROTÉICO

novembro 2017 Miriam Ash poeta e cricrítica de arte                            


PROCEDIMENTOS
Escrever sobre o artifeiticeiro Alexandre Franco Dacosta é estar no vórtice de um ponto de fuga que pela extrema proximidade não vemos a olho nu. Esse ser enigmatemático, é constantemente multitemático por excelência da essência. Além de operar por dentro e por fora com diversos instrumentos da linguagem visual, esse ser único e pluricelular, se metamorfoseia em histriônicas manobras na música, no cinema e no teatro.

Mas analisemos laboriatorialmente esta mostra de poesia visual, vertente que o artepincelista desenvolve há mais de 15 anos. Com este título, “Autopoese”, ele expôs individualmente em 2014 no Oi Futuro Ipanema, em 2015/2016 no EAC - Espacio de Arte Contemporaneo em Montevideo - Uruguay e em 2016 no Centro Cultural Raul de Leoni - Petrópolis/RJ.


MACROSCOPIA

Bloco de múltiplos fragmentos - o paciente artisofista deflagra com furor sua meta-metralhadora giratória de conceitos que se cruzam e geram uma zona de conflito litero-bélico para nossa exaurida razão. Cria-se neste campo tensorial um “autoterritório, um autoplaneta, um autouniverso, uma área útil de sensível exploração filosófica do pensamento”, como escreve Dacosta na introdução de seu E-Book Autopoese, que está sendo lançado simultaneamente à essa exposição pela Editora Lacre - são 65 poemas-objeto, poesias gráficas e sonoras, que na sintonia fina do humor e da ironia arquitetam ampla paisagem visual do cotidiano supra-real em que persistimos em existir.




                                              

MICROSCOPIA
Os cortes historiológicos evidenciam uma neoplasticidade hipercelular - não há necessidade de ficar citando este ou aquele trabalho, frase ou sílaba, criada por este artivista, porque todo o conjunto protéico penetra em nossa corrente e nos intoxica de ar-ser-nico. Dacosta chuta com as duas pernas, num fluxo de lançamento de ideias, que se não formos adestrados goleiros, deixamos passar o couro dos contentes por entre as palmas das mãos de nossa retiniana inteligência. E nossa psique-alma sai deste recinto impregnada de sopro e voa além das quatro funções: pensamento - percepção - sentimento - intuição. Alexandre cria com esta exibição uma quinta função: a transplanação -aessência de trans-acender o simbólico.


DIAGNÓSTICO
Segundo a literatura, sugere-se a complementação diagnóstica com rigoroso estudo psicopatológico para avaliar a deteccão das mutações decorrentes da atuação destas obras no cérebro dos espectadores desta heterogenial exposição.