AUGUSTO HERKENHOFF / Fernando Cocchiarale


Ainda que não tenha feito parte da safra de artistas que há uns vinte e cinco anos retomou a voga da pintura no país, Augusto Herkenhoff floresceu no campo de possibilidades por ela aberto. Representante da segunda e última leva de artistas da chamada geração 80, cujo epicentro nacional foi a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Herkenhoff nunca se interessou pela busca experimental de materiais ou meios não convencionais e alternativos.

Sua produção, foi marcada desde sempre pelas questões pictóricas do repertório expressionista, de grande influência nos anos 80, devido à contribuição do neo-expressionismo alemão à cena internacional da época. Consequentemente a obra de Augusto diverge, tanto no modo pelo qual é produzida, quanto em seus resultados, da clareza e da ordem intrínsecas à produção conceitual ou à economia legada pela minimal, comum a muitos artistas contemporâneos. Eles talvez tenham maior aceitação e trânsito na arte brasileira do que Herkenhoff, pois a limpa economia de suas obras corresponde, certamente, a alguns dos mais caros hábitos estéticos cultivados no Brasil, desde o sucesso histórico do construtivismo.

Ao contrário, o excesso de camadas de o excesso das camadas de tinta, a profusão de cores, a dramaticidade dos rostos e o contágio entre as pinturas é inseparável do sucesso desse trabalho. Se o confrontarmos com os pintores de sua geração, Augusto é aquele que mais próximo se manteve da tradição expressionista histórica.

Do seu surgimento, ainda no século XIX, até o começo do abstracionismo, na segunda década do século XX, as vanguardas modernistas investigaram e estabeleceram as possibilidades de uma plástica autônoma do tema, pela ênfase na potência poética dos meios
formais, cromáticos ou espaciais da própria arte. A aversão pela esfera temática, no entanto, não foi partilhada de modo igual por essas vanguardas.

Tido como uma tendência trans-histórica na qual a criação artística, de tempos em tempos,  vem se manifestando, o expressionismo delineou-se em Daumier, Ensor, Munch e Van Gogh, ainda na segunda metade do século XIX. Somente em 1905, porém, Frutificou, tanto na França (Fauvismo), quanto na Alemanha (Die Brücke), embora tenha se consolidado, a partir de seus desdobramentos futuros, como um fenômeno alemão.

Ao longo do século passado a questão expressionista, transbordou seu leito originário, perpassou o expressionismo abstrato dos anos cinqüenta e finalmente renasceu no neo-expressionismo dos anos oitenta. Sua recorrência e atualidade reside no fato de ser antes um
modo de conceber e criar, do que um repertório plástico-formal claramente definido. Se confrontado com os corolários das vanguardas típicas do modernismo, centradas na invenção formal, o expressionismo pode ser considerado um ismo impróprio.

Próxima pela fatura e, em alguns momentos, pela temática, às raízes do
expressionismo, a pintura de Augusto não pode ser, contudo, reduzida a uma nostalgia. Seu trabalho transborda essas referências históricas e, trilhando um dos caminhos possíveis para a renovação da pintura brasileira atual, procura na concentração, no contágio e no campo
simbólico a contemporaneidade que o distingue de repertórios passados.

Mas a distinção fundamental entre a época em que surgiu o expressionismo e a de hoje, consiste na fé curiosa (e no temor) que a primeira nutria a respeito do lado oculto da condição humana e no atual afloramento desse lado à tona corpórea em que transita a vida
contemporânea. Estratégica para o desmonte das fronteiras que separavam a esfera social pública e privada, essa superficialização das relações e dos processos afetivos, sexuais, sociais, éticos e estéticos ocorre, de modo semelhante, na esfera intelectual.

Anteriormente voltadas para busca da oculta e invisível essência das coisas, ou para o isolamento dos traços fixos de suas identidades, as práticas teóricas vem procurando, nas três últimas décadas, explicá-las a partir de um real sem entranhas, onde a profundidade dá
lugar à superfície, a uma rede de redes, onde tudo pode se comunicar sem qualquer mergulho. Elas totalizam em suas extensas malhas, segundo os desígnios do capital (e seus dissidentes), a fragmentação dos velhos e desarticulados modelos de identidade, produzindo um mundo
global (contraditoriamente), constelar e tribal.

Numa antecipação deslocada das intuições da psicanálise, a literatura, ainda muito antes do romance gótico (século XVIII) e do romantismo (século XIX), procurou revelar os meandros da mente humana (Hamlet e Macbeth de Shakespeare; Fausto de Goethe, por exemplo). Obras que se eternizaram no imaginário moderno e contemporâneo, como
Frankenstein (Mary Shelley, 1818) e Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Robert Louis Stevenson, 1886), referem-se à perigosa proximidade entre ciência e ética, razão e instintos, realidade e imaginário.

Mas como emprestar sentido a uma pintura que por princípio (e na contra-mão de artistas como Mondrian, Pollock, Barnett Newman o Ryman) não busca um sistema formalizado? Pela expressão de pulsões interiores? A questão permanece: como um processo de trabalho eminentemente expressivo pode escapar do fluxo arbitrário da subjetividade e adquirir um sentido cultural coletivo?

No caso de Augusto a resposta está possivelmente na interpretação e no tratamento pictórico dos temas de suas diversas séries – Pinturas Alemãs, Chuva de Rosas, Vasos de Flores, Meus Pincéis, Bailes, Doutores, entre outras – temas que edita ao aproximar fragmentos icônicos de seu próprio imaginário (Doutores), de seu metier (Meus Pincéis), ou de imagens pré-existentes, caso das Pinturas Alemãs, mostrada de modo resumido nessa exposição.

“Copiadas” de um antigo cartão postal germânico que nos mostra um dormitório de caserna, o espaço das Pinturas Alemãs é um só: o da perspectiva de um ângulo reto formado por duas paredes que contém, à esquerda, uma mesa, e à direita, duas camas. Soturno, o ambiente entretanto pulsa com certo frescor entre luzes e sombras próximas ao Barroco, graças às dezenas de silhuetas de rostos de militares que recobrem as duas paredes da cena. Qual estrelas, estes rostos flutuam sobre as paredes do dormitório para formar um frágil sistema de fragmentos (silhuetas) agrupados em constelações. Este postal gerou dezenas de quadros iguais e totalmente diferentes uns dos outros, já que a fatura expressiva produziu inflexões tão peculiares que, quando confrontadas, são desconcertantes. Coexistem, portanto, em cada um desses quadros duas séries divergentes. Aquela que nasce da semelhança entre todas as pinturas e a que surge de suas diferenças, tão radicais quanto as afinidades que possuem.
Outra série de pinturas de Herkenhoff, selecionada para integrar parcialmente a presente mostra é a da Chuva de Rosas, mais especificamente dois trabalhos da Chuva de Rosas com Navios. Da mesma maneira que nas Pinturas Alemãs, também aqui, Augusto produz um espaço constelar. No entanto, podemos observar, existem divergências evidentes entre essas séries: em lugar da clausura do dormitório alemão, o mar aberto, no lugar dos móveis um vapor antigo (Fellini?), contra o fundo formado pelas paredes, a superfície da tela ao longo do qual chovem rosas vermelhas que equivalem às silhuetas que afloram das paredes das Pinturas Alemãs.

Encerrando a seleção de partes das séries de Herkenhoff feita para essa exposição, tomamos alguns exemplos da sedutora série Vasos com Flores. Embora sob a órbita da tradição inaugurada pelas naturezas-mortas holandesas desde o século XVII e, por isso mesmo, de composição mais convencional, podemos ver também nessas pinturas o papel especial do fragmento, de sua dispersão pelo quadro, na formação dos espaços constelares que marcam parte significativa da produção do artista. Ainda que contidas em vasos, as flores funcionam com uma lógica semelhante à das silhuetas e das rosas, já que formam uma rede de inegável força icônica, rede que não só torna viável o sistema e o método de pintar de Augusto Herkenhoff, como também torna visível seu imaginário.


Fernando Cocchiarale é Curador do MAM - Rio


MOMENTOS DE PINTURA/ Marcus de Lontra costa

Apesar dos pesares, ainda existe a possibilidade de ser feliz. A pintura de Augusto Herkenhoff, destratada, debochada, desbocada, investe nesse compromisso. Ela não se preocupa em ser feia ou bonita, moderna ou não-moderna, clara ou escura, racional ou emocional. Retrato.

Nada de limites, nada de prisões. A pintura se sacode dentro do elétrico liquidificador do contemporâneo. O quadro ainda é a arena na qual o caldo eclético e demolidor da pintura constrói o seu espetáculo, síntese do drama e da comédia. A arte, entretanto, não pode renegar seu passado: ela é um discurso sobre si própria. Cumpre construir-se a família, preparar a sua própria genealogia. Jogo da memória.

É evidente que o artista não se encontra jamais sozinho nessa caminhada: a sua produção, a sua vontade, a sua atitude diante da história de seu ofício caminha em sintonia com as expectativas e propostas de seus colegas dos anos 80, em especial os neo-figurativos italianos. Desestruturar o castelo da racionalidade moderna dentro da qual se enclausura a arte não é tarefa das mais fáceis. Afinal, desmitificar o espírito da arte implica em mitificar o objeto da arte. Perdidos no tempo.

Augusto é símbolo da paz. Entretanto, chega de glórias, chega de hinos. O artista encontra-se no calor da luta, em plena batalha. Nesse espaço ambíguo da pintura, tensão e tesão provocam energias complementares. Todo o prazer nasce da angústia, todo o gozo é fruto do pavor da impotência. O artista deixa sangrar na tela o seu dia-a-dia, as imagens da televisão, as partidas de futebol, a santa e louca realidade que nos rodeia. Cabe ao artista recriá-la na tela, com as armas do desenho e da pintura, da mesma maneira que o cientista, em seu laboratório, tenta isolar o vírus. O artista vê a água da terra e a terra do mar. Caminhante da meia-noite.

A arte é o berço e o túmulo da arte. Augusto acredita no popular, na espontaneidade. De Wahrol a Clemente dirigem-se os seus interesses, sem desprezar os nacionais Jorge Duarte e Vitor Arruda. Tudo bem, esses são seus pares, balizas que delimitam o seu território, o seu interesse. No momento atual da arte em que todos parecem muito dispostos a investir, de novo, em produções de arte pretensamente mais inteligentes e sofisticadas, ditas reducionistas, nas quais a mais nova discussão envolve matéria e forma (a malha fina do capitalismo na arte muitas vezes assemelha-se a um relógio com um único ponteiro), a exposição de Augusto Herkenhoff, constitui um excelente contraponto a toda essa new wave que começa a ser patrocinada pelos mercadores tupiniquins. A sorte está lançada.


Marcus de Lontra costa é Curador