DE PRIMEIRA/ Roberto Conduru

O trabalho de Rômulo Martinz é mais um indício da relatividade contemporânea dos meios técnicos na experimentação em arte. O artista pode valer-se tanto das técnicas mais recentes de produção da imagem (fotografia, cinema e meios digitais) quanto das técnicas mais tradicionais de formalização (desenho, pintura, escultura e gravura). O diferencial artístico está além.

De imediato, salta aos olhos o seu domínio dos meios gráficos, o uso rigoroso e intenso de papel, tinta e grafite para deflagrar a luz em suas gradações rumo à escuridão. Logo, contudo, percebemos como as obras exploram mais do que o tonalismo luminoso. Aproximando-se da pintura, papel, tinta e grafite aparecem também como cores, como timbres específicos da luz: branco, preto e cinza. E mais – papel, tinta e grafite também conseguem ser vistos apenas enquanto tais: papel, tinta e grafite. Plurívocos e anti-ilusionistas, os desenhos falam das propriedades dos materiais, evidenciando ressonâncias de suas texturas – o brilho algo aquoso do grafite, a opacidade seca da tinta acrílica, o aveludado úmido do papel.

Atrai, também à primeira vista, o seu domínio da planaridade, o vigor com que faz pulsar a reversibilidade entre fundo e figura. Formas geométricas sutilmente impuras e linhas de força esgarçadas e rompidas fazem o campo latejar, contraindo-se e dilatando. Grades ao mesmo tempo corroídas e primevas conquistam vitalidade contemporânea para uma ordem plástica historicamente desgastada.

Poderiam ser estabelecidas conexões com movimentos artísticos anteriores e experiências atuais semelhantes. Invocar precedentes ou correlatos históricos seria, entretanto, um exercício de pedantismo sufocante na abordagem de um trabalho tão impulsivo e, em certa medida, inculto. O trabalho livre e despretensioso de Rômulo Martinz não estimula nem recomenda usar argumentos de autoridade.

Mais produtivo, me parece, é sublinhar como suas obras indicam um processo de questionamento da percepção do e no mundo. Pesquisa constante e inquieta que o levou a ampliar seu campo de ação, experimentando a pintura e o campo tridimensional. Inserindo-nos em suas explorações de reflexos, opacidades e transparências com espelhos no espaço, explicita e redimensiona o chamado para que participemos de seu interrogar, mergulhando nos mistérios e abismos do ver e dos demais sentidos humanos.

Roberto Conduru é Curador e Professor

OUTRAS ÁGUAS/ Roberto Conduru (2006)

Em sua segunda exposição individual, Rômulo Martinz torna evidente ao público o caráter prolixo de seu trabalho. Em relação às obras exibidas em 2003, sobressai a pluralidade de suas vias de experimentação. A quantidade de obras produzidas, os diferentes meios empregados – desenho, pintura, arte digital – e os vários caminhos pelos quais envereda em casa um deles delineiam um fazer inquieto, quase compulsivo, aberto a múltiplas possibilidades.

O uso da cor também se ampliou. Mais do que o acréscimo de gamas do espectro cromático, importa a exploração de suas propriedade – timbres, ressonâncias – complexificando a dinâmica entre as cores, aprofundando o trânsito entre o gráfico e o pictórico. A luminosidade varia: opacidade transparência, clareza, translucidez, turvação.
As formas se conectam, superpõem, fundem, promovendo expansões e recolhimentos, enovelamentos e propulsões. Persiste e se intensifica o pulsar da reversibilidade entre o campo de aparecimento e as formas, entre formar e a figuração, entre tornar visível, representar e narrar. Não há fixação, pois definir e dissolver são processos concomitantes, interdependentes, que latejam, se armam e revertem incessantemente. Se as obras anteriores pertenciam ao domínio da terra, é aquático o universo em que fluem os trabalhos atuais.

O afastamento ainda maior das referências construtivas indica um distanciamento da projetualidade, de ideologias. Passando ao largo das discussões conceituais da arte, Rômulo quer conhecer e experimentar, mergulhar no universo de pontos, linhas, manchas, cores, materiais, texturas, figuras, formas, formatos, meios.
Essa imersão no mundo plástico-visual não é, contudo, uma adesão às idéias de pureza e autonomia da forma. Pode implicar justo o oposto. Palavras, sentenças, textos se imiscuem discretamente, aqui e ali, em meio a linhas e formas, fazendo emergir vivências de modo sutil, tornando perceptível sua vontade de expressão, dando a ver uma subjetividade oscilante, em formação. Suas obras são silenciosas, têm um jeito aparentemente tranqüilo, embora denso, que parece guardar pulsões prestes a irromper. Sua timidez é óbvia, mas não vem de par com a indecisão, uma vez que a impulsividade atravessa o seu caminho. Assim, inquietude e conturbação marcam o processar livre do que vê e experimenta: arte, não arte, vida.

Pode ser dito que Rômulo Martinz segue caminhos já trilhados. Apesar de não resultarem de uma procura do novo, suas obras possuem uma sinceridade e um frescor que diferem de boa parte dos trabalhos de arte hoje, que já surgem exauridos, milimetricamente definidos, conceituados, reflexivos, com planos de ação, de marketing e de ataque, em resposta às exigências do sistema de arte contemporâneo. Aparentemente alheio ao cerco institucional, inconsciente da complexidade do mundo da arte atual, Rômulo Martinz não se pauta por determinações, estratégicas, resultados. Com certeza, logo terá que se confrontar com as regras do jogo artístico, pois o mundo da arte lhe cobrará outros aprofundamentos, mergulhos em águas menos doces e cristalinas. A meu ver, só não deve abandonar o modo aberto e franco como se entrega à arte.

Roberto Conduru é Curador e Professor
Exposição - Solar Grandjean de Montigny