SOBRE A NATUREZA DO TEMPO / Daniela Labra 

Com olhar curioso de quem procura encantamentos nas pequenas coisas entre a terra e o céu, Lia do Rio observa a inexorável espiral metamórfica do Universo e seus mistérios transformadores de toda matéria que nos configura e cerca. Em sua pesquisa artística, elainvestiga fissuras no outrora seguro binômio tempo-espaço, hoje cada vez mais líquido nesta era de conexões globais e velocidades alucinantes. O sono, encurtado nas cidades por mil dispositivos eletrônicos que aumentam a produtividade, perde sua importância reconfortante diante de um quadro de consumismo ávido e imediatista. Sem sonho ou sono, 24 horas por dia conectado em algum dispositivo, o homem contemporâneo termina por esquecer sua relação com o outro, com a natureza e o Cosmos - cuja poeira compõe nossos corpos e nos integra a galáxias, planetas, vias lácteas sem fim. Percebendo seu ambiente saturado de tanto tudo, este homem do aqui e do agora já começou a visar novos horizontes a serem colonizados, e ensaia uma volta ao lugar cósmico mirando em outros planetasestudando suas capacidades de abrigar a vida que daqui zarpará um dia.

Refletindo de certo modo sobre tais questões, juntamente com uma das reflexões mais caras à filosofia, que é a natureza do tempo, a instalação multimídia "Sobre a Natureza do Tempo", composta de seis vídeo projeções e dois objetos, toca em algumas angústias da contemporaneidade que emergem da constatação de um mundo em crise onde o passado tornou-se descarte, o presente é consumo e o futuro será acúmulo desorientado. Apesar de densos, tais temas, contudo, são sugeridos nesta obra de Lia do Rio de modo suave, poético e não-literal, sem angústia nem tragicidade, em um ambiente construído para uma contemplação vagarosa, no contra-fluxo da acelerada temporalidade urbana.Desse modo, o espectador é envolvido em uma realidade outra para ser posicionado nesse tempo suspenso, encapsulado no seio da cidade, e experimentar com a imaginação e sensibilidade dimensões que estão para além do seu cotidiano.

Se, por um lado, sabemos que um dos encantamentos de toda obra de arte é criar essa espécie de encapsulamento temporal que suspende o público em uma fruição morosa e descolada da realidade agitada, por outra a instalação "Sobre a Natureza do Tempo" tem como peculiaridade oferecer esta experiência através de um espaço cósmico produzido pela artista por meio de imagens que são, em sua maioria, bastante terrenas. O trabalho, cuja narratividade não é nada linear, intriga com imagens que evocam o enorme espaço sideral e a pequenina vida na Terra de uma só vez: uma trilha de formigas, um buraco negro delineado compedras, folhagens varridas em um jardim, um flagrante de pessoas apressadas que ignoram um mágico eclipse lunar na noite acima. Distraídos, seria possível vencermos o tempo?

Talvez esta pergunta sem resposta certa esteja no cerne dos elementos intrigantes que, com os vídeos, completam o conjunto da obra: Um monóculo com a foto de uma mulher varrendo folhas; uma vitrine com a imagem do solo de Marte onde cálculos renais - pedras – da própria artista compõem um relevo; o áudio de um estranho ruído que preenche parte do ambiente instalativo. O primeiro objeto, o monóculo, exibe na realidade uma das 115 fotografias enviadas para o espaço no final dos anos 1970 na nave Voyager, pela NASA, juntamente com dois discos de ouro com áudios da vida terrestre. Feitos para viajarem por mais de 40 mil anos, a Voyager e seu conteúdo é de fato uma cápsula do tempo sem data para ser aberta, que provavelmente superará em existência a raça humana. Essa fotografia, escolhida por Lia do Rio para a exposição, poderia chamar a atenção apenas por parecer insolitamente banal em um contexto científico tão ambicioso, mas ocorre que ela também tem relação direta com um dos seus atos artísticos mais recorrentes, o de varrer folhagens para criar formas no chão. Já o objeto que justapõe pedras e imagem topográfica marciana parece, por sua vez, aproximar de modo lírico e bem humorado o homem da sua origem e fim cósmicos, enquanto que o som audível, curioso, é uma frequência do espaço captada por uma sonda, capaz de nos transportar subliminarmente para bem longe...

A pequena constelação de imagens, situações e referências reunidas pela artista tecem ao fim suposições de como podemos viver e sonhar dentro da espiral de um tempo planetário em permanente alteração, que rege tudo. Na sua ciência plasmada em arte, Lia do Rio nos conduz para além do frenesi contemporâneo e ensina que a ditadura do tempo cronológico, aquele "do relógio", só escraviza quem não se atém para olhar as estrelas. Acontece que o andamento temporal das coisas e a marcação de seu ritmo depende mais de nós do que do ambiente que nos envolve. Desse modo, diante da correria do mundo tão exigente, não seria demais acreditar que simplesmente caminhar em marcha lenta pode ser um ato de protesto, enquanto que sentar e contemplar o tempo à distância uma forma de resistência. Nesse sentido, "Sobre a Natureza do Tempo" é um portal para um lugar do ócio, da arte, do além-terra, da criação no infinito espaço sideral que habita em cada um de nós, em nossos imensos tempos particulares.

Daniela Labra é Curadora

 

E-TERNO-TEMPO DE LIASonia Salcedo (2013)

Destemida, uma folha se lança no abismo do acaso. Liberta de seu ramo ou lugar, evolui um desenho dança no espaço. Atento, o olhar de Lia capta aquele momento, reinventando-o como imagem, vestígio-rodopio-vídeo, traço, instalação... Não menos interessada, enquadra o desflorescer de um jambeiro sobre as pedras do caminho e, fotograficamente, faz daquele purpurar pintura-tapete-flor...

A vida en rose é ciranda pra Lia. Brincadeira de roda que roda, roda e num instante: um dia criança, volta e meia nem tanto... Façamos de conta, então: esconde-esconde de sol – que tece traje de seus feixes – travestindo palmeira-girafa de sombra solo, rés do chão, em ponteiro-relógio-luz... [h]ora gente, [h]ora gigante... tique-taque bradicárdico de pulso-atleta-corredor... 

Largada, circuito, chegada é história pra Lia contar, sem princípio, meio ou fim: germe/broto, folha/flor, logo logo fruto-semente que gira e volta a germinar... eterna e efemeramente... e volta a girar efêmera e eternamente...

Qual evento-performance candente, vejam: a folha goelabaixo fogo voraz engolidor... folha-fumaça > folha-brasa > folha-cinza em jazer transmutador... se a chama foi bela e alta (lembrando Quintana), cantemos a canção da vida na própria luz consumida!

Sim! ... e tudo um dia vira rastro, marco indicial do ser em seu mover circular... quer seja forma, ritmo, imagem ou aliança natura naturans-naturata, nada escapa à progressão espiralar... áurea geometria cumulativa feito casa/casca/caracol/caramujo. Eis o tempo, tempo, tempo... efêmero, eterno e terno tempo de Lia, escriturado, assim, em livro de folhas, página a página, aberto, opaco, esférico, vazado, como surdo silêncio a vibrar no devir.

Ab ovo a semente, desta vez num ventre. Tem timbre de tambor e xilofone de ninar? [Ah!]: germe-broto-ciclo-gente feito espelho-mosaico, memória-caleidoscópio, passadeira-sépia de madonas-lias aos nossos pés, passo a passo entre compassos de caixinhas musicais... espaço [ENTRE] tempo do cubo branco, como caixa-preta de uma arte movida pela inadequação da paridade celebração/melancolia... Pura invenção de Lia... do desejo, vontade ou necessidade de perceber cada espaçar do tempo no luto de sua indecifrável densidade ou misteriosa vacuidade. Paradoxo que lhe apraz, imprimindo em seu semblante um quê de Monalisa.

Sonia Salcedo é Curadora


ESPAÇO INDIZÍVEL/ Isabela Frade (2005)


Lia do Rio, ao construir sua obra, investe nos espaços do cotidiano - álbuns de família ou a paisagem da Lagoa convertidos em territórios livres, abertos a um novo olhar. Liberto da convenção, o ordinário recupera seu potencial expressivo. O elemento doméstico, ressignificado, adquire uma força inesperada, retroagindo em seu ambiente. 

O olhar é imediatamente seduzido pela beleza de suas formas. Mas esse arrebatamento não motiva apenas contemplação. Capturado, apaixonado, o espectador se vê imerso numa nova dimensão onde as relações regulares com o meio circundante são alteradas. Novos significados se agregam, resultantes dos percursos que o público realiza para atingir o sentido da obra. O feixe de relações estabelecidas se abre ao infinito.

Seus trabalhos criam relações que envolvem o universo físico de maneira ampla. Algumas obras evocam princípios da Land Art, em apropriações de denso rigor conceitual. Em uma delas, Lia propõe um eixo da Terra, uma coluna que atravessa o globo virtualmente. Projeto que cria uma interseção entre pólos opostos – a torre de folhas, espaço formado por elementos equivalentes, propriedade comum aos dois lugares. A coluna de Lia parece retificar a inflexão da Terra. Espécie de wormhole, conceito com o qual a física determina a conexão de pontos distintos na superfície do espaço-tempo.O mundo se re-apresenta, se faz caosmos.

O elemento material de tantos trabalhos, a folha, possui um simbologia extensa, especialmente ligada ao tempo natural e à sua passagem. Para Lia, ela serve como recurso a uma conversão radical. A presença da folha inverte, justamente, seu sentido primeiro, de que o tempo passa. De sua insurgência contra um movimento aparente, logicamente seqüencial, as obras transformam a natureza da folha em presença plena, abolindo o tempo. Na arte de Lia o tempo não existe. O que subsiste é a ação criativa que transforma a realidade física, reordenando-a, virando-a pelo avesso. A ação se faz linguagem na medida em que estabelece um campo próprio de significações. Deslocamentos, cortes, duplicações, rebatimentos, acúmulos, esgarçamentos. O gesto intervém na paisagem trazendo um sentido novo para cada elemento (depois de Lia, as folhas nunca mais serão as mesmas).

Em Cronos, uma semente adquire imensurável força. Expande-se como objeto extraordinário, pura potência em seu isolamento. Sua ocorrência sutil é desconcertante, libertadora. Única e total. Em seu interior, o tempo não passa. O espaço de superfície, cápsula transgressora, é de um vermelho vivo. Cor que satura a retina e faz brilhar o ponto significante. O jogo paradoxal provoca uma descontaminação profunda de nossas sensibilidades. Não se trata de uma abordagem periférica, mas de um envolvimento pleno. A consciência, arejada, respira e absorve a matéria enquanto força-signo re-qualificada.

Em Espaço-Tempo, o diálogo entre as duas imagens femininas se dá na conjugação instantânea, infinitivo absoluto que irrompe na presença do terceiro elemento, o espectador. Luz e sombra, figura imaterial dos corpos de carne e pedra. Leitura do ontem, passado recente, e da origem, passado remoto que se inscrevem no agora. A Vênus paira, em um espaço neutro, idealizado, ícone do primordial. A menina parece brotar do solo, espaço quase reconhecível, equiparando-se à Deusa. O singular e o universal estão dispostos lado a lado. No ângulo de 90 graus, essa relação absorve o enigma pessoal, identidade projetada sobre uma superfície que se dobra.  

Outra ação desconcertante: o descolamento que faz acontecer o Espaço sem Tempo. Positivo x negativo, presença x ausência. O instante que se perpetua e se abre em superfície. A escrita maquinal cujo sentido nos escapa, non-sense que constrói um espaço indizível. 

Deixemos-nos envolver. Fazemos parte da obra de Lia. A linha contínua onde o tempo não passa incorpora agora o espaço da UERJ. Vivenciamos o paradoxo: ao seguir nos descolamos do tempo. Enquanto passamos emergimos do fluxo.

Isabela Frade é Professora e Pesquisadora


O TEMPO DAS COISAS/ Edgar Lyra (2006)


Subia um rio pedregoso e ermo. Empaquei em certo ponto: não sabia por onde passar. Olhava pesando as dificuldades. Chamaram-me súbita atenção três pedras pequenas, redondas, encarrapitadas uma sobre a outra, as três sobre uma rocha, uma rocha rochosa, daquelas que só chuvarada muito forte move. Foram parar ali as três como? Por acaso não. Definitivamente não. Teriam sido empilhadas, empilhadas bem naquele lugar, por alguém dotado de mãos e de vontade. E, se alguém ali estivera é porque era possível ali chegar; se era possível ir até lá, então havia caminho; se havia caminho, eu não precisava olhar mais.
Descobri, tempos depois, que escoteiros e andarilhos experientes, escolados na solidariedade e nos rastros, adotavam esses códigos. Mas não eram o código e sua generosa aplicação que me haviam encantado. Era a coisa do nexo se fazendo, estranho, repentino, precário, genial.

Lembrei-me dessa história toda vendo trabalhos e conversando com a artista plástica Lia do Rio. É bom assim quando o trabalho do outro vai instigando o pensamento e o pensamento, fazendo-se com liberdade, pode adubar de volta o trabalho que lhe deu origem.    
O caso é que Lia pensa com as coisas, com as mais variadas coisas, coisas categorialmente tão variadas quanto pedras, janelas, praias, folhas, memórias, tempos. Anda pelo mundo à procura de nexos para dizer as coisas que acha que precisam ser ditas, para fazer aparecer as coisas mesmas, melhor as mesmas coisas, sob luzes outras que não as habituais. Me parece coisa de dizer coisas com coisas, de reorganizar as coisas de modo que suas relações sejam falantes, de transformar meras coisas em coisas descobertas no seu mistério de ser coisa: coisa, provavelmente, de deixar o mundo menos pobre, menos banal, mais digno de cuidado.   
Alguém antes de mim, disse que o trabalho de Lia é monumental. É. O rio dela é o rio do mundo, do mundo de todas as coisas, naturais e artificiais. Nada a ver, bem entendido, com a grandiloquência ou a vocação para o espetáculo. Penso na sombra do poste de Santa Tereza, fixada, pintada no chão, coisa simples, relojão de uma marca só, capturando o giro da terra. Esse movimento grande e misterioso – seja ele qual for, da terra, do sol, ou algum outro astro a ser descoberto nos próximos mil anos – na vida ordinária existe só em traçinhos ou algarismos. Vem então a artista e, num pathos tanto mais denso quanto mais silenciosa a sua expressão, pretende torná-lo visível, compartilhável, presente.

Pensei também na coisa das folhas, das folhas que caem e ficam por aí até serem varridas, meio lixo meio paisagem. São folhas caídas de árvores que demoraram anos para crescer, que foram banhadas pelo sol e iluminadas pela chuva, que ao se desprenderem dançaram com o vento do dia a dança da sua espécie, que fizeram ruídos e mais ruídos no chão sob os pés. Naturalmente, essas folhas não se amontoam em cubos, nem em espirais, nem fazem diários para si mesmas... E cabe o quê, entre o cair caótico, natural, e as ordenações todas? Mais incisivamente: – Podia a natureza, essa que tem no homem o seu outro, ser, nesse outro, mais consciente de si mesma, isto é, da fabulosa plástica do seu vir-a-ser? Esquecimento grande, lembrança vertiginosa, heróica no seu embate com o torvelinho cotidiano.

Lia virou-se mais recente e pontualmente para o tempo, para o tempo em si mesmo. Mais que as folhas ou o giro da terra, o tempo é coisa invisível, inaudível, impalpável. Difícil até saber que espécie de coisa é. Difícil mesmo. Quem sabe a filosofia? Escreveu Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, em suas Confissões: “E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Falavam os gregos antes dele de tempos, de Aion (algo como a eternidade), de Kronos (inexorável passar), de Kairós (o momento oportuno), também, Platão, no Timeu de “imagem móvel da eternidade”, e Aristóteles, na Física, do tempo como “diferenciação e quantificação de movimentos”. Filósofos mais recentes disseram-no de outros modos: “forma da nossa sensibilidade”... “duração”... “horizonte transcendental de toda a compreensão”.Enfim, não sabemos o que é o tempo. Agimos, todavia, como se soubéssemos, até porque precisamos providenciar coisas mais práticas. Mas, convenhamos, nem uma lembrancinha?

Inconformada, Lia cimentou em volta de uma árvore, lenta em seu crescer, a afirmação: “O tempo não passa”. Porque empilhadas sobre a natureza do hábito, passam essas palavras de cimento, melifluamente, da coisa da afirmação para a da interrogação: – O tempo passa? Passa? Passa com que velocidade? Não é ele, por acaso, o denominador comum de todas as velocidades? Aristóteles talvez tivesse razão: o que há são mudanças. O tempo, na verdade, é um modo de diferenciá-las e quantificá-las em sua vertiginosa diversidade. O problema com essa antiga enunciação, me parece, é termos ficado apenas com a necessidade, com a conveniência da quantificação, perdendo quase que inteiramente de vista a incrível variedade de metamorfoses do mundo.
Uma única e repentina certeza: há mais coisas entre o instante e a eternidade do que sonha a nossa empobrecida experiência.

Edgar Lyra é Professor e filósofo


Regina Vater (2007)

Existem certos artistas cuja Arte não é só forma sem ética e sem interesse pelas questões da existência. Existem artistas que possuem uma sensibilidade na obra que acaba gotejando e impregnando em rastros os gestos do viver e da convivência. Ponho no masculino porque, como diz minha amiga Olga Savary, 'Poeta' não dá para se classificar em "gênero".

E Lia artista/poeta/ser pensante sobre o mundo, obra e abre aos nossos olhos, visões do Tempo, da Natureza e do secreto das coisas que nos convidam a ser mais cordiais, delicados e atentos a certas fragrâncias da vida que teimamos esquecer.

Suas 'armações'/instalações são trovas de encantamento à privilegiada natureza brasileira, porém lembrando sempre que nada é eterno e que mesmo o Tempo na sua passagem entrópica até desenha belezas no caminho ao grande "Nada".

E vejo que tudo, ela faz com sensível humor, neste humor sábio daqueles que não se levam tanto a sério. Lição para os que se pensam.

Sua obsessão com o Tempo/dimensão nos faz, além de colegas, irmãs, neste sentir do mundo e da ampulheta voraz que consome: mundo, gente e memória.

Regina Vater é Artista Visual


Keinosuke Murata (2009)

As folhas secas utilizadas por Do Rio são geralmente consideradas como a corporificação da fugacidade.
Esta conotação de impermanência existe universalmente, do Oriente ao Ocidente. Entretanto, quando este sentido de impermanência corre o risco de gerar uma idéia de resignação é preciso fazer "ver o que não mais se via: o tempo fluindo em inúmeros pontos intemporais (os aqui/agoras). Lembramos do passado aqui e agora e imaginamos o futuro aqui e agora. O tempo representado por pontos e cada um deles contendo todo o universo”. (...)

Como disse Heráclito, "todas as coisas são postas em movimento e fluem". Não há dúvida de que convivemos com a impermanência e a transitoriedade, tanto conceitual quanto sensorialmente. A modernidade, tentando criar uma imagem totalizadora do mundo, instalou o simulacro e a ordem artificial, mas acabou por trazer à tona a fragmentação de todas as coisas. Hoje em dia, o sentido de uma nova comunidade mitológica está se corporificando. De agora em diante, não mais se fazendo de um lugar fora da impermanência, mas de dentro dela mesmo: não mais por dissipação, mas por assimilação.

Keinosuke Murata é crítico de arte, no Japão


SOBRE A ARTE E O ARTISTALia do Rio (2005)

O artista trabalha, inicialmente, seguindo impulsos. No início existe um “Sim”, algo não dizível se apresenta. Alguma coisa o move, um “ter que fazer”: tem que ser com determinada linguagem, com determinado material, com determinada forma, com determinada cor, que só pode ser aquela e, de maneira nenhuma, outra qualquer. De onde vem essa certeza ele, naquele momento ainda desconhece.

Apesar de nem sempre saber o que o está movendo, o artista sabe exatamente o que deve fazer; o que não pode prever são as transformações que o seu fazer provocará, e aquilo que aparecerá como resultado. Não é apenas o que de início o moveu que importa, mas também aquilo que posteriormente emerge na obra. Trabalha para que aquilo que o afetou permaneça, e ao fazê-lo, somos inseridos no seu campo perceptivo.

A afecção persiste na obra, nos transforma, nos transtorna. Somos acrescidos de novas percepções, e após, não podemos ser mais os mesmos. O relacionamento com a obra é individual, não há como experimentá-la através de outro. O artista explora a potencialidade expressiva dos materiais e linguagens que tornam o trabalho passível de ser lido plasticamente. Seu pensar é o próprio fazer. No processo não existe tranquilidade. Vagueia entre a angústia e a plenitude, na urgência de atualizar.

O artista não afirma, faz pensar, e a obra é esse desejo de indagar por meio dela.  Isso se passa a um nível tal que, por vezes, ele só consegue dar-se conta do que o afetou depois do trabalho concluído. A própria obra vai lhe dizer a que veio. Ela é autônoma e carrega, também, todas as possibilidades dela mesma, uma vez no mundo. E por se manifestar de uma forma inusitada, causa estranhamento.

É difícil para um artista falar do próprio trabalho. Por mais que dele fale estará falando apenas do seu processo. Só é possível “dizer”, através do trabalho. Dele emana algo que dá ensejo a que se crie um espaço de reflexão. A arte redimensiona as nossas certezas. Porém ela não é um meio de conhecer o real, o real é que permeia a obra.

O artista não cria nada novo, apenas dá a perceber uma das infinitas possibilidades de ser. Antes, apenas um potencial. A possibilidade de um trabalho existir, se fazer, já existe como possibilidade em si. Sem o artista a obra não se faria, mas é ela que nos faz fazê-la.

Assim, a trajetória de um artista é um caminho de descobertas, não sabemos aonde ela vai nos levar. O processo acontece sem palavras, a um nível não muito consciente. Mas não se trata de um nível inconsciente.
É um outro espaço. Que espaço é esse?

Lia do Rio é Artista Visual