Os des-objetos que recrio nas últimas três décadas, cheios do saber da artesania popular e dos elementos do naturais com o trabalho da ação do tempo, foram muitas vezes colhidos como objetos menosprezados, trabalhados sem nenhuma intenção formal ou de utilidade imediata e, às vezes, sem nenhum respeito à sua matéria.
Por isso, também, me interessou a oportunidade de enobrecê-los, ao desejar revelar uma função poética para que outros, como eu, também sejam encantados pelas possibilidades da poesia em nós, sempre refazer-se, ao recriar o Mundo.
(...) Gosto ainda mais da amorosidade que tenho pela matéria extraída dos meios naturais e trabalhada para funções utilitárias e como pela ação do tempo sobre as coisas. Através dos seus elementos vitais, esta mesma matéria transforma-se, transmuta-se e desfigura-se ganhando outros significados de uso, tempo e espaço.
Me fascina, ainda, o uso que fazemos dos objetos, e como em suas utilidades ganham uma aura de energia e sinergia em parceria com o tempo, criando estados que extrapolam e vazam pela matéria. A resultante está além dos significados e dos significantes. É isso que eu chamo de “corpo da transcendência”.
Bené Fonteles

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Uma Caligrafia Objetual e Espiritual
A Mitopoética de Bené Fonteles

Adolfo Montejo Navas, 2008

(...) Toda a trajetória de Bené Fonteles mexe na articulação dos nexos que alimentam a realidade, 
re-significa-os de outra maneira, oferece-nos outra consciência. Através de uma obra que incorpora referentes, certa contextualidade, tanto qualidades valiosas incondicionalmente estéticas quanto qualidades de valor esteticamente condicionais (aspectos propriamente artísticos e ligados ao mundo, ambos coexistentes, sem problemas de intercessão), numa experiência estética que como sabemos estreita vida e obra, incorpora diversos backgrounds culturais, inseridos na própria estruturação do objeto artístico. O que favorece, em suma, a saída de um tempo regrado ou vigiado para outros ritmos, no qual a edição do “Cozinheiro do Tempo” alude. Ela remete a outro devir mais generoso, que inclui outras culturas temporais, não só ligações com culturas arcaicas ou a tardomodernidade, como também o acervo dos acontecimentos que ainda procura seu devir nas margens. Talvez porque se trata de um “tempo ancestral que se constitui no processo dinâmico de sedimentação, sempre em gestação, que se adensa e se intensifica nas camadas geológicas esquecidas e adormecidas na terra de todos e de ninguém”. Estas possíveis direções temporais simultâneas são o que o Cozinheiro do Tempo apresenta. A condição radial de sua obra (os seus sinais) baseia-se na procura de equilíbrio: os signos objetuais de Bené – quais emblemas abertos – perpassam uma transfiguração silenciosa, mas afirmativa, se equacionam numa dialética viva de tempos, linguagens e imaginários.

“O verdadeiro artista ajuda o mundo revelando verdades místicas” (1967), dizia um famoso trabalho em néon de Bruce Naumam, quase provocativamente. Longe e perto disso, a arte contemporânea mal reconhece o questionamento implícito da existência, a procura de um sentimento imanente ou a sua profunda capacidade de gerar símbolos. No caso de nosso artista, como de alguns artistas inevitáveis, da estirpe de Malevitch, Kandisky, Klee, Duchamp, Rothko, Tápies, Bill Viola, Joseph Beuys, Mona Hatoum, Ana Mendieta, James Lee Byars, Walter de Maria, Marina Abramovic & Ulay, Artur Barrio, Amélia Toledo, Arthur Bispo do Rosário, Rubem Valentim, entre outros, continua sendo produzida uma re-semantização espiritual das formas, uma plástica que não quer deixar de ser transcendente, de indagar visualmente sobre nossa perplexa condição humana, e a sua relação espírito–matéria. A tentativa não pode ser mais alta e mais comum ao mesmo tempo. E assim a sua iconologia mestiça afro-ameríndia-nordestina responde a uma simbologia estético-politeísta, mais sintética que discursiva, muito mais epifânica que retórica. “Profana divindade?” como diz o artista. Ou um sentido do sagrado quase cotidiano, em nada circunscrito às lendas pasteurizadas? Ou como procura do transcendente dos limites?    

Se já foi dito que Bené Fonteles nos indianiza, nos podemos acrescentar, em paráfrase, que nos espiritualiza. Não esqueçamos tampouco que assim como a palavra poética começa na fala do indizível, a partir dessa impossibilidade, a sua poética está além dos trabalhos propriamente ditos, das peças em si, como a poesia está além das palavras e das semânticas presas. Assim, é uma poética que cria a sua pertinência humanista – dar significação, perspectiva simbólica – inventando sua própria mitologia poética contemporânea.

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Por dentro, pássaros soltos...

Wagner Barja, 2004


A obra de Bené Fonteles traz bons presságios para o destino da arte e fala de coisas que habitam um lugar onde está o espírito da liberdade.
Encontramos as propostas de Fonteles numa geografia impalpável, sem fronteiras para a nossa e a sua (dele) imaginação. Ao desconstruir as limitações canônicas das tendências formalistas, já ofuscadas na cultura visual contemporânea, Bené recria um estatuto ético/estético no âmbito do político e do mitológico.


Tão intenso é seu exercício de liberdade, no ir-e-vir entre múltiplos códigos e signos visuais, que a persona se confunde com a obra. Sua presença torna crível uma obra de discurso polifônico numa simbiose que traz à cena artística uma personagem espelho, inimitável e genuína.


Transitar entre linguagens é uma prática usual em seus projetos; cada obra, ou ação, presentifica-se pela crudeza primitiva de materialidade neoconstrutiva, que assume um grande arco mediador de evocações do sublime e agrega no discurso crítico e político as questões do sagrado.


Ao apertarmos o olho para o universo de Bené, enxergamos além do que normalmente vemos: um horizonte perfilado por divindades de culturas distintas conciliadas numa mesma temporalidade.


Ao aproximarmo-nos dos objetos que o artista cria, percebe-se a extremada reverência que ele tem ao recolher objetos e referências culturais para introduzi-las no âmbito do espaço mítico e sagrado. Faz-nos sentir que esses objetos em trânsito, resgatados ao mundo, redimensionados num abrigo sem teto, sem paredes, sem nada visível que os suprima a comunicabilidade aconchegante, o artista os oferece generosamente a um convívio íntimo.


Essas peças/signos são premeditadamente recolhidas desse mesmo mundo distraído, que deixa cair tudo da mão, que desperdiça e destrói.
É o mundo massificado e indiferente que o artista critica à exaustão, ao criar esses ambientes/obra acolhedores de idéias contestadoras, que nos embalam o sono intranquilo e nos alertam, com mensagens de uma arte imantada que reclama e anuncia inusitadas transformações.
Artesão de características neomodernas, Bené compõe um romântico discurso prenhe de ideologias psicossociais, de uma intuitiva antropologia lúdica, que diz respeito ao levantamento de ricas culturas, crenças e costumes guardadores de importantes tesouros artísticos.
No caleidoscópio que abriga na cabeça, Fonteles gesta imagens que variam da moderna tradição ao artesanato, passeia de mãos dadas com budas e orixás, entre signos e símbolos, aos quais confia a construção e um templo de relicários para sua arte. Arte ao mesmo tempo suntuosa e simples, instalada nesses lugares que pensam. Esses lugares lá onde seus pares rezam e idealizam a derrubada do muro que há entre o erudito e o popular, entre a razão e a emoção.


Nas metáforas estéticas dessa cria de Suassuna, há uma semântica própria, uma arqueologia do conhecimento edificada sobre bases de formas puras e ingênuas, sintomas das culturas onde repousa a tradição dos fazeres.


Suas obras instalam os tais espaços pensantes, que com dimensões universais clamam à integridade do humano, pleiteiam uma ação pacífica do indivíduo na natureza e apelam à preservação da crença no espírito. Trazem as bênçãos, menos das religiões que da religiosidade, e se alimentam de mitologias que compõem uma cosmologia épica do bem.


Assim, Bené Fonteles vai jogando luz nas coisas simples da vida, é uma árvore carregada de complexas indagações existenciais, a distribuir frutos e flores das culturas remanescentes de crenças cristãs, afro-brasileiras e do sentido de vazio do budismo no qual Bené também se inspira. Transforma seus objetos em sentidos e atitudes, que levam a identificá-lo mais como um xamã do que como um artista.
Bené sabe que a poética reside no interior e no exterior das coisas de arte, que em essência, visíveis ou não, tornam-se objetos de arte e do desejo, compartilhados no pensamento livre do fruidor. Esses pensamentos/objetos são anti-museus e galerias. Fazem parte de um cotidiano que não pode ser aprisionado numa fórmula estética, sendo por natureza pertencentes a um inventário impalpável de ideias no âmbito conceitual. São anotações do simples e do grandioso da vocação do lado artístico do indivíduo que transforma tudo o que toca em conceito.
Evocar é intrínseco ao objeto de arte e nisso a obra de Bené tem cátedras, tantos são os sobrevoos que faz aos ensinamentos do sagrado. Em suas proposições elaboradas na religiosidade mestiça do Brasil, sustenta-se um rosário de crenças que, mediunizado por Fonteles, torna-se o suporte de um arsenal primoroso, rico em citações transculturalistas. Essas redes de proposições  escapam ao largo do puro formalismo caboclo, trazendo à compreensão uma bem dosada síntese desses conceitos e valores, que cria sua surpreendente montagem da linguagem para uma comunicação universal.


A mestiçagem e a ideia crítica da descolonização das ideias transbordam na eloquência do conjunto de toda a sua produção e glorificam um brasileiríssimo país, orgulhosamente mestiço, enraizado e constituído de solidez cultural, interiorizado e identificado nos costumes, porém não tão ingênuo e ignorante à sujeição iminente da aculturação que Bené critica e rejeita em suas oportunas intervenções.

O ideal de igualdade, fraternidade e liberdade é potencializado na obra Coluna finita. Numa clara referência a Brancusi, a coluna de Bené é construída com funis de aço inox superpostos do piso ao teto. Na citação do artista, o grande mestre da escultura moderna compartilha o mesmo espaço com um anônimo artesão. Bené revisita a alta modernidade e mostra seu possível diálogo com as culturas populares.

A palavra “impermanência”, em adesivo digital na parede, tem, como um parênteses concreto e tridimensional, dois fósseis de peixes pré-históricos, extraídos de sítios arqueológicos do Ceará. Essa obra apresenta um alfabeto atemporal, numa construção que aponta para o passado e para o futuro. Indaga sobre a permanência e a sobrevivência das culturas que se dimensionam no tempo lógico. Duvida do que ainda persiste e do que é inexoravelmente efêmero no mundo material. Nessa proposição definitiva, Bené dá a perceber com essa obra/nome seu ponto de vista sobre os valores imateriais, demonstra a vida relativa de suas próprias criações e transfere aos conteúdos impalpáveis do espírito a condição de transubstanciação para ultrapassar as limitações da matéria.
Diz-se, há muito, que a verdadeira arte está onde existe a impermanência.