NOTAS DO OBSERVATÓRIO/ Lygia Calil (2014)

As três últimas décadas do melhor da produção de arte contemporânea brasileira têm algo em comum: o registro cuidadoso do fotógrafo Wilton Montenegro. A partir de hoje, a galeria do Oi Futuro mostra um acervo de mais de 500 fotos assinadas por ele em “Notas do Observatório”, que dá conta de boa parte do que foi produzido na contemporaneidade em expressões das artes visuais tão diversas quanto esculturas, instalações e performances. Por mais que a estrela da exposição seja Montenegro, ele dispensa o crédito individual e a classifica de mostra coletiva, pois os cliques revelam obras de mais de cem artistas, como Waltércio Caldas, Ascânio MMM e Tunga.

Nas imagens ampliadas e projetadas da exposição, há registros feitos para produtos como catálogos e livros, além de flagrantes dos artistas e de seus ateliês, como o ambiente de trabalho do escultor Franz Weissmann. Nesta seara, um dos destaques é a sessão feita no ateliê do escultor Sérgio Camargo realizada logo após sua morte, numa tentativa de mostrar como era o espaço exatamente como o artista o deixou, antes que alguém o modificasse – fotos publicadas originalmente no livro “Camargo, Esculturas”.

Sem um rigor quanto à cronologia, a mostra caminha por trabalhos de artistas já consagrados e também por iniciantes da arte contemporânea. Entre eles, aparecem nomes como Cristina Pape, José Rufino, Henrique Oliveira, Simone Michelin, Celina Portela, mostrando os processos de transformação da arte brasileira a cada geração de artistas. A “Notas do Observatório” mostrada em Belo Horizonte é uma versão ampliada da homônima montada no Rio de Janeiro em 2006, no Centro Cultural Telemar, que deu origem ao livro de mesmo nome.

Segundo o artista, foi uma das suas exposições de fotos mais visitadas. “Foi a primeira mostra a ocupar o prédio todo onde hoje funciona o Oi Futuro no Rio e teve uma movimentação muito intensa. A Oi não registra público, então não dá para ter a quantidade exata de pessoas que passaram por lá, mas posso dizer que foi muita gente. Foi emocionante ver, por exemplo, a garotada das escolas entrando, olhando as fotos com as mãos em forma de binóculo, mostrando que as imagens diziam algo para eles. Foi gratificante e vai ser bom repetir a experiência”, diz o artista.

Ao traduzir outros tipos de arte para a fotografia, ele diz se sentir um “traidor da arte”, porque não é possível ser fiel à mensagem original quando ela passa pelo olhar do fotógrafo e é resumida, enquadrada em um formato bidimensional. “É muito difícil. Tento não ser arrogante e me deixo disponível para olhar e receber essa obra. Procuro sempre ser uma espécie de veículo, um funcionário dela. Ainda assim, acabo apresentando apenas um ponto de vista, sempre o meu, que, é claro, interfere no sentido”, afirma. A esse processo, ele defende que seu trabalho se compara à “transcriação”, termo cunhado por Haroldo de Campos na tradução de poetas estrangeiros.

Na mostra, há fotos de performances que foram realizadas exclusivamente para que o fotógrafo as registrasse, o que para ele coloca a fotografia no papel do corpo. “A foto existe para quem não viu, não presenciou o fato. Ela põe essa ausência do corpo em evidência. O corpo não está lá, mas está representado. Quem vê a foto perdeu aquele instante registrado, e a partir da imagem a discussão passa a ser outra”, reflete, em uma fala pontuada e entremeada por frases de filósofos célebres, uma de suas predileções.

Para Montenegro, o diálogo entre o artista e o fotógrafo é fundamental, embora nem sempre as visões sejam parecidas e se chegue a um consenso de qual a melhor forma de fotografar determinada obra. As brigas, nesses casos, também são importantes na avaliação dele. “O trabalho é sempre uma parceria, há a parte de sentar, discutir e chegar a um ponto. Quando não dá, faço o que eu quero e o que o artista quer. Aí, sim, a gente vê as duas coisas e chega a uma conclusão. O resultado nem sempre é o que é melhor para o artista, mas sempre o que é melhor para a obra”, pontua, emendando que é prazeroso quando o artista pega a foto pronta e a retransforma, colocando-a de volta à obra, como suporte para o trabalho.

Sobre o aposto de “maior fotógrafo da arte contemporânea brasileira” frequentemente usado em textos em que é citado, ele descarta prontamente o rótulo, fazendo graça. “Não gosto dessa coisa de maior. Posso ser, talvez, apenas o mais velho em atividade. Meu negócio não é ser grande, é dar um testemunho do tempo que vivi e das coisas inacreditáveis que vi. Sou obrigado a dar conta desses presentes que eu recebi, é uma dívida da dádiva, a minha maneira de responder ao mundo por poder ter visto tanta coisa”.

Lygia Calil é jornalista
Exposição - Oi Futuro BH


Fernando Gerheim (2009)

(...) o olhar de Wilton não tem um alvo definido, e é atraído por aquilo que lhe provoca, nas palavras do próprio fotógrafo, um “susto lento”. São fotos produzidas esparsamente ao longo [da vida], sem a intenção primordial de unidade (...); criam narrativas internas, circulares. Tornam o olhar interminável, insolúvel, e o transformam de caçador em presa. (...) O gesto que fundamenta a inscrição das coisas, corpos ou situações anônimas no universo das imagens nessas fotos de Wilton é nítido. Ele inscreve somente o que não consegue tornar visível na sucessão de imagens do mundo, necessitando ser traduzido para uma língua que a própria imagem funda.

Fernando Gerheim. Isto foi, é e será, não necessariamente nessa ordem. Ciências Humanas e Sociais em Revista – v.31, n. 1, jan./jun., 2009. Seropédica, RJ (Ed. Universidade Rural, 2009. P135)

Fernando Gerheim é Filósofo e Professor