MINÚNCIAS DA PINTURA EM CARLITO RODRIGUES

á foi mote das artes plásticas a morte da pintura, assim como a do verso na poesia, quando então imperava na primeira metade do século passado a ideologia construtivista das vanguardas com seu viés formalista. A verdade é que, pintura ou verso, como a Fênix, eles sempre ressurgem das próprias cinzas. Ou como o trabalho incessante de Sísifo, sempre se reiniciando, retomando a sua eterna tarefa. É o caso, por exemplo, da pintura em Carlito Rodrigues que ora analisamos. Há nela vários ângulos de abordagem dos quais fixaremos três que, segundo cremos, saltam aos olhos de quem a observa.

À primeira vista,a paisagem que observamos na sua pintura neoconstrutiva (se podemos chamá-la assim por mero comodismo) aflora por meio de imagens de montanhas ou de morros, como os do Pão de Açúcar e do Corcovado, cujo enredamento na trama pictórica fazem-nas adquirirem novas conotações. De cartões postais da cidade, transformam-se em ícones, não da cidade, mas da própria pintura em que se inserem – formas expressas em cubos geométricos não formalistas, numa espécie, digamos, de visão quântica desses ícones. Isto porque, como em Cézanne e o Mont de Sainte Victoire, a paisagem é apenas um artifício para a apreensão do fazer pictórico.

Trata-se de uma paisagem desconstruída em suas minúcias microscópicas, tornando-se ela, paisagem, referência mínima do Todo que constitui a tela ao serem captadas de forma esteticamente atomizada, numa dialética entre o Todo e as partes – uma apreensão mais das partículas que o compõe do que de sua imagem ordinária e dominante – diria até autoritária – em sua presença na realidade prosaica.

O confronto ou a tensão entre desenho (representação, figura) e pintura (expressão, espessura) é que desvela ao olhar do espectador a essência própria do seu ato de pintar – enfim, da pintura mesma em seu ato criador. Ou seja, como se o artista fosse um Virgílio nos guiando por entre uma selva de cores e formas, de sentidos e não-sentidos, que constituem a sua obra e por onde nós, espectadores, enveredamos.

Por outro lado, os ícones a que nos referimos anteriormente respondem, dentro do conjunto que constitui a geometria poética do trabalho do artista, por uma outra poética – a da linha. Deste modo, a paisagem deixa de ser uma “referência mínima” para o olhar do espectador, pois reconhecendo-os em seus contornos e repetição, passa a funcionar ou operar como duplo estrutural, em sua referencialidade, de todo o quadro – ou pintura, como queiram.

Neste sentido, a palavra “repetição” talvez seja a palavra-chave para o entendimento da relação do pintor com a história das artes plásticas ocidentais. Sabe-se da anedota de que Cézanne pintou única e obsessivamente o Mont de Sainte Victoire, mesmo quando pintava um corpo feminino. Podemos concluir daí que as obsessivas repetições das imagens do Pão de Açúcar e do Corcovado são uma citação de Cézanne?

Do nosso ponto de vista, a resposta é afirmativa, até porque as razões pictóricas que os moveram parecem-nos as mesmas: uma busca da razão, da emoção, da verdade da pintura. Estas reflexões que sempre foram o suporte da pintura – da Renascença à Modernidade –, têm sido uma marca dos pintores brasileiros atuais, seja numa retomada lúdica, geométrica, hedonista, figurativa, etc. Quaisquer que sejam, porém, eles exigem, frente à ostensiva presença da Tradição, um tratamento rigoroso ao nível da linguagem. É o caso, insistimos, de Carlito Rodrigues.

Sem concessões mercadológicas, por refletir as grandes questões atemporais que envolvem a pintura, ele trabalha paralelamente ao mercado, este tornando-se uma espécie de paradigma do pensamento artístico em sua obra. O que lhe importa é a reflexão crítica que o trabalho pode e deve mobilizar diante da realidade – seja a do mercado, a da identidade cultural, a da tecnologia, etc.

Poderíamos relacionar sua pintura a diversos artistas, além do já citado Cézanne, como, por exemplo, um Matisse (pelo seu cromatismo), um Torres-Garcia (pelo seu expressionismo-geométrico) e, até mesmo, um Van Gogh (sobretudo o Van Gogh de Uma noite estrelada), ao percebermos em alguns quadros a predominância de um azul que envolve a imagem do Pão de Açúcar. É como se o envolvesse uma mescla de céu e mar de uma visão noturna – tal como ocorre na tela do pintor holandês em relação ao céu estrelado

Portanto, a cor em Carlito Rodrigues surge na tela de forma discriminada, estrutural. Trata-se, sobretudo, de um tour de force no sentido de uma estesia transformadora – senão do mundo, da natureza – do olhar saturado de “informações tecnológicas” do espectador contemporâneo.

Frederico Gomes - Poeta e crítico de arte.  




A PINTURA MUSICAL DE CARLITO RODRIGUES


Diante das telas de Carlito Rodrigues, somos de imediato envolvidos por cores e ritmos vibrantes: uma simplicidade que nos reserva surpresas. Essa é uma pintura que se entrega aos poucos, e nunca inteiramente. A cada vez que olhamos, novos detalhes e formas aparecem. Pouco a pouco, penetramos nesse universo visual. Nas diversas camadas de tinta, adivinhamos o processo de construção das imagens. Os tons ácidos se destacam sobre os sombrios, como os tons agudos e graves de uma canção. Nada está parado. As manchas de cor dançam e criam profundidades imaginárias na superfície exposta.

Além da tinta, algo mais está presente nessa pintura, em camadas de recordações visuais - Kandinsky, Klee, Mondrian - ou mais próximos de nós, Maria Helena Vieira da Silva, certa fase de Milton Dacosta. As imagens que nos rodeiam ecoam muitas outras, num diálogo produtivo. E então percebemos, escondidas naquelas manchas, pequenas figuras. São sinais da liberdade do pintor que não se prende a qualquer princípio rígido. Se abraça a experiência da abstração, também traz referências às paisagens do Rio de Janeiro com as silhuetas do Corcovado e do Pão de Açúcar. O espectador atento, numa contemplação vagarosa e lúdica, vai prazerosamente descobrindo essas imagens. De um quadro a outro, a experiência se renova. Depois, há uma variedade de texturas: cores diluídas, empastamentos, grafismos. Podemos ficar horas em conversa silenciosa diante dessas pinturas. Impregnados de cor, a lembrança do que vimos vai perdurar em nós, pois a tinta foi contagiada pela energia do pintor.

Ana Cavalcanti - Doutora em História da Arte - Universite de Paris I - Pantheon-Sorbonne



CARLITO RODRIGUES: A PINTURA COMO PASSAGEM PARA UMA TERRA DE LUGARES MOVEDIÇOS

“Venham amigos, tomem a mão de Carlito e passem para o outro lado”. Assim uma voz anuncia o encontro entre o espectador sem nome e a pintura de Carlito Rodrigues. Esse anúncio, em seguida, se constituiria para o espectador em uma passagem para uma terra de lugares movediços, tão logo seus olhos se abrissem diante do encantamento a que cada lugar-pintura o envolvesse: e é o que inevitavelmente se instaura quando desse encontro. Desde que chegados a essa terra de mistérios pictóricos, o outro lado a que a voz se referia, não mais voltar é necessário, pois já se é outro desses muitos que ora são, enredados por essa intrincada espacialidade tecida no corpo do tempo.
O acontecimento-pintura em Carlito Rodrigues plenifica-se naquilo que demanda vivência. Sim, não há como olhar para cada micro-universo que se edifica no tempo senão por uma medida ampliada de vivência, pois diante daquilo que pode ser o banal, reveste-se em possibilidades de descoberta das passagens que o pintor tece numa temporalidade abismal. Há bloqueios na entrada: anteparos de cor que se deslocam nos diversos campos da obra. Uma mutabilidade matérica que apela a que o espectador se mova para tentar passar para o outro lado. O que se espera é logo chegar, mas sair é inconcebível, pois os lugares movediços dessa geografia, apreendem o olhar que se torna presa fácil dos vários tons, nuanças, “veladuras”, transparências e texturas. Estamos no centro de um lugar que ora oculto se veste em muitos lugares e em apenas um. Mundo quase louco, diríamos com Merleau-Ponty, que dispara: “o mundo do pintor é um mundo visível, simplesmente visível, um mundo quase louco, pois que é completo sendo, entretanto, meramente parcial”; o que já nos remete ao estado de frementes confusões, sendo que essa parcialidade é completude. Mas quem precisa de um lugar certo, estável, completo? Carlito sabe que os muitos-mesmos lugares que ergue, pode nos remeter àquelas inevitáveis e esdrúxulas necessidades de identificar os signos do mundo real: o Rio, o Corcovado, a favela, alguém: mas a voz volta a insistir: “Venham amigos, passem para o outro lado, passem, aqui esses lugares já não mais estão”.
Qual sóbrio não seria ficar ali encontrando e brincando com as fagulhas sígnicas que já se tornaram velhas. “Não!”, a voz grita do fundo do seu vazio especular. “Todas as passagens são possíveis e nenhuma é! Então tentem, tentem!” E o olhar se enche de temores. E as dores dos dias reeditam seus pesares. E o tempo reflui em doses de insustentabilidade. E a voz de Merleau-Ponty volta à cena: “essência e existência, imaginário e real, visível e invisível, a pintura baralha todas as nossas categorias ao desdobrar o seu universo onírico de essências carnais, de semelhanças eficazes, de mudas significações”. Eis o que de necessário é o habitar em nós: a condição da pintura como acontecimento que baralha as nossas categorias. As dualidades impressionantes a reedificar nossas tristes certezas, na medida mesma em que já tivermos atravessados para o tempo-lugar da pintura de Carlito; que não se quer como a fácil escalada pelas representações usuais e comparações cínicas, mas o constante surgimento de todos esses lugares que são o mesmo dele próprio a incitar o olhar que nem sequer precisa estar ali. “Voltem todos que não esperam o tempo do olhar”, é a insistente voz a nos insultar.
Mas, tarde é para que se volte, pois o primeiro olhar já é o que nos enreda a outros tantos olhares para a descoberta dos lugares movediços que são possíveis em Carlito. Lugares dele, lugares nossos, lugares outros. Tal é o ampliado dessas mutabilidades pictóricas que não se perdem, não se fixam, não acabam... “Voltem, voltem, voltem...”.
 
Luizan Pinheiro - Professor Mestre do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará (ICA/ UFPA) Doutorando em História e Crítica da Arte do PPGAV/ UFRJ