IMAGEM E MUNDO EM 3 ATOS/ Luisa Duarte (2009)

(...) Bernardo Pinheiro vem há alguns anos trabalhando com imagem e movimento em inúmeros vídeos. Na presente exposição o artista apresenta uma série de fotografias derivadas de alguns desses vídeos, cuja série chama-se “Eqüidistantes”. As obras matrizes das fotografias exibem imagens de elevadores de portas pantográficas, que abrem e fecham enquanto o elevador muda de andar. Entretanto, a edição realizada pelo artista, sobrepondo e repetindo o abrir e fechar das portas, nos dá a sensação de que ao invés de subir e descer, não se está indo para lugar algum. Não há mais a verticalidade original implícita no uso do elevador. Mas sim uma espécie de horizontalidade achatada. O prédio já não tem início, meio e fim, mas sim uma seqüência cíclica sem começo ou final. Não se chega ou sai em nenhum andar. Algo nitidamente está em movimento, mas nós, do ponto de vista da câmera, parecemos não sair do lugar.

Os movimentos são desnivelados pelo artista, criando essa tensão entre algo que deveria caminhar e nos levar para algum ponto, mas de onde, num entanto, não saímos. Pinheiro instaura a contraditória sensação de um caminhar imóvel. Ao colocar todos os andares eqüidistantes, já não existe verticalidade, hierarquia, mas sim uma horizontalidade, dada pela perspectiva do olhar. Mas, note-se, temos aqui mais uma dobra. Horizontalidade, nesse trabalho, não é sinônimo de horizonte, pois este se encontra enclausurado, limitado, em um diálogo sutil e perspicaz com a própria natureza da linguagem do vídeo que suprime a tridimensionalidade.

As fotografias derivadas das imagens em movimento, revelando em uma seqüência de frames a dinâmica cíclica e as sobreposições, têm, por sua própria natureza, a capacidade de estancar o tempo e re-afirmar a bidimensionalidade que o trabalho matriz já intencionava revelar. De maneira simples, Pinheiro realiza, nos vídeos e nas fotos, simultaneamente, um pensamento sobre a própria linguagem que utiliza e nos faz pensar sobre a mobilidade imóvel que ronda os dias de atuais. Em um tempo onde tudo parece convergir para uma corrida permanente, mas que não se traduz em linha reta com começo meio e fim, mas sim em um presente contínuo e infindável, o elevador cíclico e sem horizonte de Bernardo Pinheiro coloca para nós uma pergunta fundamental: para onde mesmo estamos indo e com tamanha pressa?

Luisa Duarte é Curadora
Exposição - Galeria Eduardo Fernandes



ENTREVISTA PARA A REVISTA DASARTES

1) Como e quando começou a se envolver com arte?

Meu envolvimento com arte começou muito cedo, mais especificamente dentro de casa. Minha mãe é produtora e gestora cultural e sempre foi uma entusiasta e apaixonada pela arte. Cresci com festas onde meus pais recebiam muitos deles. Sem contar que atores, escritores, gravadores e produtores entre meus tios e avôs. Arte para mim sempre foi parte de uma convivência. Nunca houve separação. Não consigo te dizer quando foi que me vi interessado por isso. Sempre fui muito estimulado a ir aos cinemas, teatros, concertos e sala de exposições. Sempre gostei e sempre me senti confortável nestes locais, sempre foi um espaço familiar, de afeto.

2) Como se deu sua trajetória para a fotografia e depois para a videoarte? Por que escolheu tais mídias?

A fotografia é uma paixão difícil de explicar. Quando fiz dez anos ganhei uma máquina fotográfica da minha tia, e me lembro até hoje da alegria que foi tê-la. Me lembro que gostava muito de fotografar. Aos 12 anos, no casamento de um primo, fotografei tudo, era minha forma de participar do evento. Caso contrário, me sentia só e incomodado. Outra paixão de infância foi a televisão e o video cassete. Gostava muito da aparelhagem. Desmontava tvs e videos com 10 anos. Nesta mesma época comecei a formar uma videoteca com filmes que gravava na televisão. Era realmente estranho, tinha desde de "Os intocáveis" até "O Clube dos 5". E ai que começa minha paixão pela imagem e pelo cinema. Como nunca soube desenhar, foi um movimento natural escolher estas mídias para operar quando decidi trabalhar com imagem, aos 16 anos. Mas veja bem, me refiro à imagem. A arte, seu conhecimento e a manipulação das imagens em prol de uma poética particular surge muito depois.  

3) Você me disse que o seu ateliê é o seu computador... Como você definiria esta “arte tecnológica” e o grupo de artistas que se expressam nesta linguagem...?

Toda arte é tecnológica. Ela está sempre se atualizando e modernizando as ferramentas e técnicas de produção de imagem em seu tempo. A pergunta deve ser como defino as categorizações e espaços de pensar e apresentar estas mídias. Creio que ter o ateliê no computador não é novo. Na arte conceitual, os artistas tinham seus ateliês na própria cabeça. Mas no meu caso é diferente já que as ferramentas que criam meus trabalhos e geram significados nos objetos, só podem ocorrer dentro de uma máquina e com um operacional técnico bem especifico. Este trabalho de significar e gerar códigos so ocorrem na relação entre eu e o computador. As oscilações, as hesitações e as decisões sempre estão presas por ferramentas do computador. Inclusive, atualmente tenho trabalhado em cima disso. Sempre gostei muito de forçar estas ferramentas, mas atualiza-las no trabalho de arte muitas vezes sofre um atraso. O trabalho fica ainda com a marca da máquina muito evidente. Talvez precise entender melhor os "conceituais".    

3) O que mais importa, é o que tem que ser dito ou a mídia na qual você se expressa?

Sempre o que quer ser dito. A mídia é a mídia. Para os cientistas a mídia é mais importante, mas para a arte, e todo o sensível que ela prescinde, o que importa é a poética, ou seja o que se diz e como se diz. E para este “como” é necessário pensar a mídia. Por isso arte não é uma ciência, apesar de muitas vezes precisar gritar por ela, para se manifestar, mais contemporaneamente falando, para se justificar. 

4) Afinal, para você, o que é arte?

Esta pergunta é quase sem resposta, quase. Cada artista, cada crítico, cada curador, cada galerista, cada espectador, cada indivíduo vai ter uma resposta. E também, se perguntarmos para a mesma pessoa em tempos distintos a resposta sempre vai se alterar. Prefiro responder isso usando outras respostas. Duchamp em sua clássica entrevista à Pierre Cabanne fala que "arte" que vem do sânscrito, significa "fazer", sendo artistas aqueles que fazem alguma coisa através da tela. Diria eu, através do computador, da mídia. Michael Rush em seu livro “Novas Mídias na Arte contemporânea” fala que arte na era dos museus e curadores seria um trabalho de produção visual que parte de uma pesquisa pessoal feita por um artista reconhecido por estas instituições e seus curadores. Já que qualquer um pode fazer algo “artístico”, a arte é o fazer de quem nela vive. Arte é aquilo que centraliza, que foca o confuso infinito do mundo em um trabalho que é visto por um espectador ou grupo de espectadores.

5) Qual é a questão central que pontua o seu interesse artístico?

Estou estudando no mestrado da ECO-UFRJ as manifestações das metáforas melancólicas na vídeo-arte. Quero muito procurar por isso em meu trabalho. Sempre procuro falar de um isolamento e de uma prisão do olhar. As impossibilidades me interessam. Na verdade arte para mim é muito importante, principalmente porque gosto muito de arte. Gosto muito dos artistas, aprendo muito com eles. Não sei pontuar exatamente um interesse do trabalho hoje. Existem muitos lugares para onde posso levá-lo. Tenho uma satisfação de não ter pressa.

6) Quais são suas principais influências (escolas, artistas)?

Minha educação em arte é informal. Feita em casa, no trabalho e no Parque Lage. Devo muito aos meus professores de lá Fernando Cocchiarale, Viviane Matesco, Anna Bella Geiger e Franz Manata. Também fui muito influenciado nas ideias por amigos como Vicente de Mello e Luísa Duarte. Quanto a trabalhos de arte, tenho uma paixão muito grande por Miguel Rio Branco e Bruce Nauman.


PROGRAMA ANUAL DE EXPOSIÇÕES - CENTRO CULTURAL SÃO PAULO/ Thais Rivitti (2004)


Somente ao cinema e aos filmes de Louis Malle. Em “Os amantes” e “Assessor para o cadafalso” Jeanne interpreta uma mulher burguesa enclausurada pelo casamento e pelos círculos sociais. No primeiro ela foge através do amor, o filme é libertário para as mulheres. Ela troca o casamento por um amante. No segundo ela tenta junto com o amante dar um golpe no marido e fugir, mas é mal sucedida. Existem duas situações uma de tragédia e outra de alegria, de gozo. De vida e de morte. Mas entre elas há uma conexão. Fiquei fascinado com a ideia de que orgasmos em francês é petit mort. Pequena morte. Isso é maravilhoso. Dai a imagem impávida, quase morta, de um orgasmo (trata-se da primeira cena de sexo oral do cinema, que se tem conhecimento); e de uma frustração trágica…enfim, de dor, de vida. Quem sente dor sente que está vivo e só quem está vivo pode sentir a dor.

Bernardo Pinheiro é um artista carioca que trabalha com fotografia, video e video-instalação. 0 trabalho que apresenta agora é seu segundo contato com o publico paulista, sendo a coletiva apresentada no início do ano no Centro Cultural Sao Paulo, o primeiro. Sua formação originou-se no cinema e recentemente sua pesquisa migrou para as artes plásticas.

No trabalho que esta em exposição, CDs quebrados cobrem o chão do espaço expositivo. Dois aparelhos de televisão antigos são colocados sabre os cacos. Cada uma dos TVs passa um video diferente: um e feito pelo autor com imagens urbanas captadas recentemente e o outro e uma cena do filme O Desprezo (1963, Jean-Luc Godard). Trata-se de um looping de um olhar da personagem Camille, interpretada par Brigitte Bardot no auge de sua carreira. A escolha da cena do olhar tern a ver com aquilo que motiva a ação artística de Bernardo: a procura da beleza no arte. Arte para ele não e uma prática que cabe dentro daquilo que chamamos de racional e não pode prescindir do impacto emocional, de algo logicamente inexplicável a que ele dá o nome de beleza.

Como em seu trabalho intitulado No momenta inquieto, também estruturado a partir de duas TVs com imagens de um filme - no caso, A Noite, 1961, de Michelangelo Antonioni - e de um video seu, a relação entre o passado e o presente é o centro da obra. Do passado, identificado com as obras dos dois grandes cineastas, foram selecionadas cenas poéticas, densas e belas que poderiam funcionar coma uma espécie de modelo, um ideal perdido que cabe resgatar. Mas isso se estas cenas não fossem fragmentadas, repetidas e rapidamente esvaziadas. No modo com que Bernardo volta aos filmes de Godard e Antonioni, fica clara a alusão a um processo que se intensifica dos anos 60 para ca: a dificuldade em estabelecer ligações dos partes em relação a uma totalidade, o recurso da repetição usado ao extremo com fins publicitários e o embotamento da capacidade crítica dos indivíduos. A manipulação das imagens ao extrema mostra a consciência de que o impulso de retorno ao passado é sempre contaminado por características do presente. Interditado o acesso direto ao passado, cabe ao presente, identificado com o video feito pelo artista, responder se e como ainda e possível pensar a arte utilizando-se da ideia de beleza.

Thais Rivitti é Crítica de Arte