FREDRICO DALTON / Cláudio de La Rocque Leal (1999)

Frederico Dalton adota como base da fotografia que produz, por exemplo, a praia e seu movimento engraçado, triste, comum, mas sempre com o enfoque maior sobre as crianças, meninos de rua, de praia, que se encontram expostos - haja vista a faca (único reflexo, exatamente que não é a ilusão do reflexo) que a criança desafia em uma das instalações do artista. É a temática social que, ao final deste milênio, preocupa imensamente produtores culturais, e em especial artistas. Conclui-se, então, que chegamos a becos irremediavelmente sem saída. As instalações são simples na estrutura, enquanto complexas no conceitual. Jóia, por exemplo, com a imagem do slide refletida sobre o suporte de colar de vitrine de joalheria, logo manipula a percpeção mas, em seguida - movimento inverso ao que mais tarde será lembrado -, a trai através da sombra sobre a fotografia que o slide contém e, o que é mais acentuado, utiliza a sombra que se desenha sobre o peitoril, fazendo deste um caco de cerâmica grega antiga, em que um fauno se enrola entre folhas, envolvido em brincadeiras. Ora, é tão-somente um menino sendo carregado por braços de outrem. O ilusório no processo do artista é fundamentalmente à errância poética da obra. No caso da imagem obtida, ela se inicia na projeção, que não é propriamente a imagem (final), pode tão-somente ser um suporte desta, que pode sofrer algumas interrupções ou interações - basta uma mão entre o projetor e a tela. Delicadeza no gestual, as imagens obtidas por vezes comportam a relação formal direta, como no caso de Jóia, em que o suporte do colar já indica o que é pretendido, mas também pode comportar uma relação óbvia, porém não tão direta, como no caso do Filtro/Seio. Um depurador, o outro também um coador, só que de leite e não de café. Dalton transfere qualquer possibilidade de alegoria para a representação correta da intenção; não há equívocos.

Cláudio de La Rocque Leal é Crítico de Arte
Contra-Imagem (Assim é se lhe parece). In.: RUMOS ITAÚ CULTURAL ARTES VISUAIS. Contra-Imagem. São Paulo : Itaú Cultural, 1999. p. 3.