ESPELHO, ESPELHO MEU - BREVES ESPECULAÇÕES ACERCA DA ARTE / Osvaldo Carvalho (2014) 

Em passado recente ouvi de um amigo curador que não nos esquecêssemos que Platão baniu os poetas. Isto dito me veio de imediato, à contradita, de que na verdade o filósofo tinha uma rixa com os sofistas por causa da retórica, aquela que apela para os sentimentos e afasta a racionalidade, discordava em especial com a ênfase dada ao aspecto formal em detrimento do conteúdo que o saber podia transmitir. O antagonismo estava na medida em como tratavam a distinção entre verdade e erro, para Platão algo da mais alta importância e que para os sofistas não fazia diferença, podiam defender um ponto de vista tanto quanto podiam execrá-lo. Banir a poesia, na verdade o drama, era afastar o “sentimentalismo” do discernimento dialético, aquele que nos leva em última instância ao mundo das Ideias, entenda-se, a uma realidade estável comprometida com a verdade.

Para Platão a arte era uma simulação das aparências em que representar era imitar e nada de bom poderia provir disso. Aristóteles, ao contrário, propunha um aprendizado sobre as coisas da vida que o espectador poderia obter no que se conhece como catarse, ou seja, algo de útil que provém da arte. Mas ainda que discordassem dos seus efeitos, ambos convergiam quanto à sua natureza: imitação. Platão afirma, por exemplo, que a pintura nada mais é que um espelho colocado diante do mundo.

Ao especular sobre questões tão pretéritas em seu trabalho para a Vitrine Efêmera, Marcio Zardo traz à memória um longo caminho que a teoria da arte percorreu (e percorre) na formação de seus fundamentos desde a antiguidade. Como artista e poeta visual imiscui-se em um diálogo crítico com a tradição sem, contudo, aliar ao seu projeto artístico contemporâneo a re-apropriação do conceito de sublime. Talvez por isso nos coloque espelhos nas mãos e peça que olhemos para trás ou que vejamos de trás para frente. É a arte colocada em revisão.

Esse momento que transcende ao mero ajuste de contas com as heranças históricas e se lança um passo à frente na reflexão de uma nova realidade é raro nas contas da arte contemporânea tão recheada de conchavos políticos e econômicos, favorecimentos pessoais, relações espúrias como diria Platão. Zardo é categórico, indivisível e incontornável em sua poesia e não faz concessões aos pedidos de Hamlet, não ajusta o gesto à palavra, a palavra ao gesto, nem tampouco exibe um espelho à natureza. Sua ação requer foco, o ponto onde se vê a imagem do seu escrito exposto antes ao autoconhecimento que a leitura genérica.

Especular, título de sua inédita instalação, uma caixa preta que guarda suas últimas expectativas, orienta-se pelo percurso indutivo, apresenta o olhar particular do artista que se desdobra em múltiplas experiências alheias. E aguarda como Duchamp, um tal ato criador depositado no público que decidirá por fim qual o destino de suas esperanças, que dádivas alcançará nas dúvidas que provoca sua obra pronta para consumo de olhos ávidos pela vida que passa. Quisera pudéssemos ter e crer no mágico manto de todas as explicações, conceituações, definições e conclusões que o neo-representaciolismo de Danto oferece como aplicável às diversas manifestações artísticas, porque assim não nos sentiríamos tão incapazes e insuficientes para identificar a obra de arte em sua plenitude.

 O artista arrisca estender os limites visuais de sua arte com pequenas inserções reflexivas na estrutura do discurso convencional; agrupa e afirma fatos aparentemente desconexos que findam por se assentar na carreira de proposições que aplica como oriundos da mesma razão cognitiva. História, Arte, Narciso, Cultura, Velázquez, Alice, Oiticica, Palavra, são espelhos de si e do todo. Zardo está ciente dos erros da teoria mimética nas artes visuais e longe de querer nos provar isso, apenas nos pede um instante de atenção para reaprender a ver o mundo como queria Merleau-Ponty com a verdadeira filosofia. Entretanto, não busca representações, não quer tomar o lugar de uma por outra coisa, muito menos não lhe basta que seja a cópia da cópia, ironicamente, seu embate é maior e mais amplo e com o qual discute a própria originalidade. Sua proposta atinge pontos extremos e quer e precisa ser alcançada naquilo em que ora seja construção, ora seja ruína, variantes de um vigoroso e sistemático processo de seleção estética. Espelho, espelho meu, afinal, estética é arte?

Osvaldo Carvalho é Curador e Artista Visual


PRONTA PARA CONSUMO - Renata Gesomino (2010)

De forma irônica, mas não menos reflexiva, Zardo pretende retirar o público da condição de passivo observador, na medida em que propõe uma série de trabalhos onde a repetição de palavras e frases, muitas vezes aparentemente desconexas, redireciona a atenção do público para questões fundamentais ligadas a nossa sociedade de consumo.

Procurando uma aproximação com o próprio espaço oferecido pela galeria, com suas paredes rústicas, o artista instala o seu trabalho construindo varais. A partir desses varais são pendurados cerca de 40 cartazes de papel Kraft, contendo palavras soltas e frases incompletas, escritas com tinta automotiva em spray, que evocam um muralismo urbano.

Para ler é preciso “penetrar” na obra de Zardo. Os cartazes que preenchem o espaço da galeria estão dispostos de forma desordenada, quebrando certas verticalidades e horizontalidades, exibindo-se para o observador de maneira implacável. Frente e verso, o que se vê é um conjunto de palavras que atingem os sentidos antes de atingir ao pensamento.

A multidão de cartazes, suspensa no ar por pequenos pregadores, forma um complexo jogo de palavras, onde a intenção do artista, ora explícita, ora velada, confunde mais do que esclarece.

As palavras revelam menos que instigam. Marcio Zardo desenvolve em seu trabalho, o que se poderia chamar de “ecos gráficos”. São ecos no momento em que partem também de um desejo de alcançar o poder sonoro das palavras faladas, e são gráficos, porque em seu contexto material, as palavras escritas juntamente com a técnica aplicada, dão o corpo físico da obra.

Esses “ecos gráficos” se tornam visíveis a partir da repetição em duas ou três cores combinadas - geralmente utilizando o preto, o vermelho e o tom metálico, sobrepondo-os com a finalidade de provocar um efeito de instabilidade visual. Essa instabilidade acaba por corromper além dos sentidos, os significados, gerando vários planos e um efeito de profundidade vertiginoso.

Dialeticamente, o trabalho de Zardo aborda tanto a função poética quanto a função referencial, como também fala do dado concreto e do imaterial - é documento íntimo e ficção frenética, exposto de maneira rápida, nervosa, acelerada, pois acima de tudo é seriado e contemporâneo por excelência.

Por fim, durante a inauguração da exposição, o artista irá realizar uma performance na qual, sentado à mesa num canto da sala, autenticará seus cartazes para o público, resgatando com esse gesto, a ideia de nomeação conceituada por Marcel Duchamp, e nesse contexto de obra pronta para consumo, não seriam os cartazes de Marcio Zardo também uma espécie de readymades?

Renata Gesomino é Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRJ


APALAVRALAVRA / Reynaldo Roels Jr. (2007)

Não se trata aqui apenas de palavras, tampouco apenas de imagens; com certeza, são palavras e são imagens. É, de início, um exercício sobre o limite até onde ambas podem ser fundidas, confundidas, esticadas e tensionadas. São ainda situações em torno de nossa linguagem e de nossos objetos cotidianos: julgados transparentes para todos os efeitos práticos (a opacidade é – alguns pensam – prerrogativa da especulação intelectual…), eles constituem na verdade uma fonte de armadilhas em que o mais atento pode cair sem desejar: duplicidades, ambiguidades, equívocos e mal-entendidos que bloqueiam os trilhos em que supostamente nossas vidas deveriam correr. Se, como queria Wittgenstein, os limites de nosso pensamento coincidem com os de nossa linguagem, as chances de um descarrilhamento são fartas e incontáveis. Aquilo que deveria nos facilitar o viver e o agir, funciona, de fato, como uma trava que impede o caminho. Como areia na engrenagem de um aparelho de precisão: talvez esse seja o ponto principal desta exposição, que não se limita a pensar o problema artístico da poesia visual, mas lança mão dele para manter o espectador firmemente plantado no mundo real, com todas as suas incertezas e dúvidas.

Já Mallarmé – a quem Marcio Zardo conscientemente remete – jogou com as possibilidades dadas pela relação entre visualidade e palavra, e, mesmo antes dele, outros experimentaram com situações em que uma afirmava a outra (Rabellais, por exemplo). Mais perto de nós, os concretos pretenderam levar às últimas consequências a fusão de ambas, fazendo da página impressa o espaço de uma poética em tudo inovadora – mas também com limites suficientemente conhecidos. Tratava-se, porém, de tão-somente ampliar as fronteiras da poesia para além daquelas tradicionalmente dadas. Na mostra de Zardo, em que pese a dívida (reconhecida) para com todos aqueles, a questão se põe de modo um pouco diferente.

Até os anos 1950, tudo se passava dentro das premissas do modernismo, mantido que foi pelo problema formal: a arte era o campo de ação privilegiado da boa forma (ou ainda uma variante: da boa expressão). Agora, passados mais de 50 anos – e sem a força hegemônica do formalismo –, Zardo não ignora – não poderia ignorar – que algo além de um projeto purista se põe diante do artista, e que mesmo (ou principalmente) a antiarte tinha bastante a dizer sobre as limitações conceituais que as palavras nos impõem. (Já na individual anterior do artista, os trabalhos giravam em torno de proposições sobre a natureza mesma da arte). Mais do que elaborar enunciados de ordem poética, ele usa as palavras e os objetos para indicar a fragilidade do equipamento com que tentamos dar conta de nossas experiências. Não satisfeito em manipular a palavra como imagem, e a imagem como palavra, o artista as mistura, disseca e remonta em posições que só fazem chamar a atenção para a opacidade de nossas noções e representações. São, assim, noções do dia-a-dia, ou expectativas naturalmente alimentadas, as primeiras que se vêem submetidas ao jogo de enganos e às contradições que ele propõe, tanto quanto os conceitos com que tentamos capturar o sentido de uma atividade tão escorregadia quanto a arte.

Longe de se contentar com a negatividade da manobra, contudo, há uma vontade de afirmar a possibilidade de construção de um sentido (de muitos sentidos) a despeito das dificuldades que isto represente, e das crises sucessivas que essas dificuldades costumam gerar – seja em nosso cotidiano, seja em qualquer outra área de nossa existência. Pois, para além dos obstáculos encontrados, há sempre a possibilidade de uma saída.

 Enquanto ela for capaz de gerar indagações sobre si e sobre o mundo, a arte fará sentido, mesmo quando se apresenta sob o disfarce do enigma.

Reynaldo Roels Jr. [1952-2009] Curador, Crítico de arte e Professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage -


ACESSOS POSSÍVEIS / Luiz Ernesto (2006)

Marcio Zardo trabalha com palavras. Sua dimensão visual e sonora é explorada pelo artista. Suas palavras são apresentadas solitárias, escritas em branco sobre fundo preto. Toda a série inicia-se pelo prefixo IN - privação, negação, e termina com o sufixo VEL - passível de. Ao lermos a sequência, a repetição de IN e VEL faz surgir então a impossibilidade de, a exclusão. E então, damo-nos conta de ver nosso reflexo nos vidros em frente às palavras. Espelhados, somos incluídos (IN, em inglês, dentro), encerrados no trabalho. Como um pêndulo, oscilamos num movimento de vai-e-vem entre o ver e o ler.

Luiz Ernesto é Artista Visual e Professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage



ARTE SIM - ARTE NÃO / Reynaldo Roels Jr. (2005)

Palavras: normalmente ausentes da prática modernista, persistentes na prática contemporânea, elas constituem a quase totalidade desta mostra. Pintadas (com spray) sobre o papel pardo de embrulho, remetem de imediato ao dia-a-dia, onde as pichações sobre os muros são a norma. Penduradas em varais, as folhas operam uma segunda remissão ao cotidiano. Com pouco espaço entre elas, obrigam o espectador a estabelecer um contato físico com os trabalhos que tampouco participa da relação normal com a arte.

Toda a exposição se volta a pôr em evidência a fronteira (hoje suficientemente escorregadiça) entre a arte e a não-arte, perguntando a si e ao espectador onde uma começa e onde a outra termina. O que faz de um objeto qualquer (uma folha de papel pardo com palavras pichadas, por exemplo) uma obra de arte ou uma outra coisa qualquer? Onde está o limite entre um objeto comum e um trabalho intelectual? (A resposta de Artur Danto talvez sendo o esforço mais bem sucedido, mas não totalmente completo, para desvendar o mistério). As próprias palavras, com seus jogos de significados, trocadilhos e ambigüidades, acrescentam à proposta de reflexão. Não há exatamente o que apreciar (no sentido em que uma obra convencional está sujeita à apreciação), há sobre o que refletir.

A performance que fecha a exposição põe ainda mais em evidência o caráter problematizante pretendido, permitindo que um gesto burocrático decida, voluntariosamente, o que venha a ser (ou não ser) arte, ainda uma vez através de palavras, sim e/ou não. A questão não é resolvida, claro; apenas é explicitada como problema, deixando em suspenso uma solução que só poderia ser dada se violentadas as premissas.

Reynaldo Roels Jr.


+ NOVOS  / Lia do Rio (2001)

Marcio Zardo - Nele a poesia não basta, ela torna-se material da obra e aponta para algo além do seu significado. Atemporalidade na instância poética da criação plástica. E sonhos. Sonhos exalando odores. Ver, pegar, comer sonhos, comer poesia - espaço permeado pelos sentidos - sssonoridade sssibilante.

Lia do Rio é Artista Visual e curadora