A PULSAÇÃO DO CRISTAL  / Fabiana Éboli Santos  (2016)

"O universo poético de Alexandre Dacosta oferece uma profusão de elementos: letra-forma, palavra, texto... ruído, som, música... símbolo, signo, visual, sensorial... matérias densa e diáfana... volume físico, frequência sonora, campo vibratório... E tudo se articula em composições transversais, unindo linguagens de forma exclusiva - alexandrina!
Diante desta fortuna poética, busco palavras e formas que encontrem algum sentido parental com sua obra, que transitem soltas, alegres, por entre seus signos, perseguindo instantes de iluminação, eventos aleatórios, no afã de traduzir mais uma vez as múltiplas traduções e transições que o artista realiza com desenvoltura.
No projeto para a Vitrine Efêmera, que consta da instalação e um livreto – pesquisa sobre a memória do vidro – encontro afinidade poética entre o fragmento, a transparência e uma galáxia de corpos e sentidos em suspensão.
Alexandre usa o vidro da vitrine como plano pictórico, mais exatamente, como plano gráfico sobre o qual são pontuadas intervenções plástico-poéticas por meio de ventosas de diversos tipos, coladas ao vidro e nas quais anexam e/ou pendem objetos, linhas, fios, palavras, signos... tecendo uma rede de conexões. Campo visual construído num processo delicado de reunião de fragmentos textuais e objetuais, em que o meio = ventosa =  chapada no vidro, no interior da vitrine, é significante.
Ventosa, de vento, de pressão conseguida com o AR = elemento químico incolor, inodoro, impalpável, envolvente e vital... N2 + O2 + CO2 + H2O + O3 + outros gases aleatórios : * A R *: elemento dominante no espaço do planeta, dominante também no espaço criado no interior-exterior da vitrine, site-specific dadá surreal de amálgama de significados.
Nessa ação instalativa vislumbra-se conceito: decisão de eliminar, a partir da transparência do vidro, fronteiras entre dentro e fora, superfície e fundo, frente e verso ... E por falar em verso, somos surpreendidos por signos-versos pós-neo-concretos, que se referem à situação vidro à plano à transparência, à abstração do espaço cúbico e sua transformação em espaço imaginário onde reina ∞ inconsciente > livre > associação... Ocupação humana, esquemática e vibrante, pulsante como um núcleo vivo, ou um coração!
A pulsação da incidência da luz ï no cristal, a cegueira momentânea provocada pelo raio reflexivo que traz nele todas as cores do espectro e o som do cristal  agulha fina que penetra o tímpano.
Ao eliminar a ideia de vitrine ou de cubo branco, ao tratar o vidro como plano a tela do pintor, o artista produz uma inversão. O vidro não é mais anteparo transparente que dá a ver um interior, ele é superfície pictórica e de inscrição/escritura. Ao fixar nele objetos, fragmentos, interrupções - sem começo nem fim teleológico, interferências de narrativa não-linear - instaura uma “ironia da passagem”, subversiva da função de atravessamento, e há uma quebra da transparência... O vidro passa a ser espelho do que está fora, frontalmente – o espectador.
Assim como o * A * R * inalado, percebido com todos os sentidos no espaço da vitrine-rua, a imagem do observador, do entorno e da rua é devolvida pelo espelho-plano = tela que dissolve fronteiras materiais. O tempo · a memória 6a (s) história (s) estão presentes neste agora recipiente de mensagens fragmentadas. Não é preciso falar das lendas e mitologias do espelho...
Alexandre Dacosta comparou a interferência–situação na Vitrine Efêmera a um “muro das lamentações” – mas não o histórico, localizável geopoliticamente. Associando as linguagens gráfica e plástica – em que usa objetos materiais de presença ambígua – o artista cria um sistema de identificação, confissões íntimas e descobertas! A sua, a minha, imagem / memória / história, de todos, em algum dos cantos ± espaços da Vitrine, há de se encontrar...

Fabiana Éboli Santos é Curadora independente
Exposição - Vitrine Efêmera


 Não BASTA PARECER NOVO/ Ferreira Gullar (2013)

“(...) Mas há artistas que, sem voltar ao tradicional, criam novas linguagens, como, por exemplo, Alexandre Dacosta, que se vale de múltiplas relações formais e vocabulares para nos instigar a imaginação e nos divertir. Ele atua nos mais diversos campos de expressão visual, mas aqui vou me ater aos dois livros que editou recentemente e que se intitulam “Tecnopoética” e “Adjetos”.
São criações de gratificante originalidade, em que o artista mescla objetos, cores, palavras e signos visuais, postos todos a serviço de um senso de humor que explora o nonsense.
Ao contrário de outros artistas que tentam impor-se pelo gigantismo das obras, Alexandre inventa pequenos objetos, à vezes ‘máquinas inúteis’, à La Picabia.
Exemplo: o “receptor descartável de impropérios”, e outro, chamado “Suruba”, feito de tomadas elétricas encaixadas umas nas outras. Há um outro, que consiste num sapato com rodas de patins e uma hélice que o faria levantar voo.
Ele define seus objetos como “inutensílios capazes de deslocar a percepção para uma invertida reflexão do cotidiano”. Trata-se de uma das manifestações mais inteligentes e criativas dentre as que vi ultimamente nesse gênero de arte”.

Ferreira Gullar é Poeta e Crítico de Arte
Folha de São Paulo


ALEXANDRE DACOSTA - PERCURSO DE COEXISTÊNCIAS IMPROVÁVEIS / Luiz Guilherme Vergara  (2013)

"Quantas surpresas poéticas são entrecruzadas nas obras e processos de Alexandre Dacosta? Em cada trabalho uma estrutura desviante da razão que não se prende a um fazer, mas sim a um constante desfazer de sentidos, descriar desobediente que se realiza com o humor de um construtivista de improbabilidades. Alexandre é um anti-filósofo, anti-cientista e anti-artista, mas que enquanto poeta acima de tudo, permanece desfazendo as certezas nas ordens do mundo. A concepção dessa mostra procura oferecer ao visitante um percurso quase tátil de sobrevoo ao incansável laboratório de coexistências improváveis, que indaga a todos sobre a própria distância e semelhança entre o lugar do artista e do cientista - quando ambos são guiados pela busca das incertezas. Mas enquanto sob o domínio do estado poiético se aproxima de ambos, atraído pelos problemas da realidade, rejeitando qualquer de-finição. Como autêntico poeta herdeiro de Mallarmé ou poiete (aquele que faz) desfaz e rejeita o mundo de esgotamentos lógicos ou de determinismos estéticos e éticos. Faz poemas – coisas, poemas atos, partituras vídeos, elevando a experiência artística a uma insustentável “nuvens de probabilidades”. Dacosta relembra um Leonardo Da Vinci recolhido ao avesso do século XXI - não inventando máquinas de guerra ou voos, mas “instrumentos indecisos – adjetos”.
Prezado visitante, preste atenção aos pequenos universos tecnopoéticos de Alexandre, onde poderíamos invocar em sua prática artística uma pedagogia da descriaçãopoiética - que realiza o compromisso maior do ser humano com o estado de inventor de “inutensílios” do dia a dia. Mas como afirma Dacosta, “ao deslocar a percepção para uma invertida reflexão do cotidiano procuram cartografar a intimidade anímica da matéria - sua fisionomia, forma, textura, componentes, é que sugerem sua partitura (...) todas com um particular humor subliminar”. Com o desfazimento dos utensílios em inutensílios, Alexandre desconstrói máquinas e aparelhos de funcionamentos domesticados, para a desinvenção e re-invenção enquanto organismos animados de perguntas entre o nada e o ser das coisas".

Luiz Guilherme Vergara é Curador do MAC 
Exposição - MAC


AD / AD / Ricardo Basbaum (2011)

Finalmente está concluída, para lançamento público, a série Adjetos, de Alexandre Dacosta, em versão musical: desenvolvida ao longo de duas décadas, é com alegria que ouvidos e olhos podem finalmente se confrontar com mais um enigma provocatório deste inquieto artista: olhos e ouvidos convocados para funcionar em conjunto – não necessariamente ao mesmo tempo, em simultâneo, mas em relação de independência e complementaridade, em busca um do outro. Para nós, olhantes-ouvintes, a tarefa se impõe com as bem-vindas e devidas complicações: é preciso mais atenção e maior cuidado aproximativo; é necessário recuar de certezas e hábitos cristalizados; deve-se ouvir e olhar sob o impacto de ritmos sucessivos, trazer as experiências em conversão conjunta. Ou olhar e ouvir? Melhor ouver? De DP (“o olhouvido ouvê”) para AD: não há qualquer acaso (sim: lance de dados) se no horizonte de uma prática artística feita na convergência de atuações múltiplas (artes visuais, teatro, cinema, televisão, literatura, música) emerge o refrão (1956) caro à vanguarda concreta. O mundo não é o mesmo, mas a inquietação de outros tempos permanece, transmutada em práticas de trânsito pop e inscrição incerta, para além das classificações-padrão.

Com a série Adjetos, Alexandre Dacosta atua não apenas nas dimensões visual e sonora: é também a nível de linguagem a operação processada. A começar pelo próprio neologismo que funda a série das ações aqui apresentadas: ad-jetos são, de saída, objetos inventados por A-lexandre D-acosta – é preciso dizer mais? Confronto de determinado artista com determinadas coisas, em embate e mistura. Trata-se de artista que emerge no cenário brasileiro no despertar dos anos 1980 e que a partir de então deixa demarcada sua ação em passos e gestos de singularidade ímpar. É outra a direção proposta, quando confrontada com a vertente majoritária do jovem artista brasileiro do período – há aqui um outro tempo, diverso, desviante, particular, re-dimensionado. Qual a dimensão de finalmente se disponibilizar publicamente, somente em 2010, um trabalho cultivado a partir de 1987? A pergunta deve ser formulada em tempo onde a eficiência máxima e o agenciamento profissionalizante são quase que o único valor – traços de um açodamento máximo e sem precedentes do mercado – especificamente, de uma determinada mercantilização automatizante, geradora de hábitos sensoriais pequenos, rasteiros. Adjetos são portadores de gestos à jato, de supersônica intensidade em paralelo: “adversos adventos” [proêmio] ou “fração diagonal” [nasce um anjo oblíquo] das coisas em seu ritmos hegemônicos.
Nestes adjetos sonoros (ad-sons?), palavras são reconcatenadas a partir de pressões rítmicas e necessidades enunciativas – colocadas em som. Encontramos aqui certa “fúfia mulher” [musa vertical] em ambiência de “pormiúdo nuvear” [solitário suspiro fiofólico]; Ogã e Anaxímenes de Mileto em terreiro de ritos e pulsões, potencialmente tomado por “ondulações esfigmáticas” [nekromanteía, dielectronhidromômetro EH 2803]; torcer o “dorso ossoso” [ossoso] é ginga aqui contida; e se “o placar foi oxo” [solitário suspiro fiofólico], isto significa dinâmica e movimento, pois “idéia fixa asfixia” [estática], por certo. Trata-se de vocabulário que atende à musica, à dicção, aos jogos de voz – esta, presente em diferentes inflexões, demarcando a presença do ator – mas que também reforça um importante traço característico dos adjetos: certo descolamento irônico dos “inutensílios”. Há investimento nesse espaço precioso – fino como uma lâmina, porém generoso – que evita desnecessárias aderências e compreende os funcionamentos como de fato a manutenção do cultivo de um lugar resistente, que o artista localiza como “fração diagonal”: aí reside a perversidade (também erótica, corpórea) dos adjetos (“abstruso abjeto”) [proêmio] em sua particular economia. Pois esse é um traço importante: estes abjetos perversos objetos exibem principalmente uma maquinação particular, sempre e a cada vez; cada qual possui funcionamento próprio, seu roteiro de etapas e procedimentos. A música seria uma delas, assim como eventalmente o filme, romance ou peça teatral (a serem evocados também pelos adjetos, porque não?). Escreve Alexandre Dacosta, que os “vestígios sonoros” aqui apresentados “procuram cartografar a intimidade anímica da matéria”: assim, certo non-sense se instaura, um pacto de não-sentido que é também total intensidade, contato de máxima proximidade entre artista e objetos: pouco a pouco emerge e se impõe o traço poético singular de um descolamento do(s) sentido(s), estratégia política de afastamento da captura banal, do lugar standard dos clichês assimiláveis, apontando rumo ao local fugidio (e é em um átimo que este se estabelece, para depois se dissolver) onde o efeito se perfaz: pois o autor não é um tipo de narciso multitalentoso qualquer, que se contentaria em ocupar o espaço de um assento laudatório, um rótulo classificatório de louvor ou virtuosidade. Aqui, se brinca com a construção do poema e a intervenção que se efetiva é precisa e contundente: o fazer em deslocamento pelos múltiplos meios é saber e também compreensão do campo de inscrição, de intervenção nas malhas da cultura. AD/AD como anagrama de DADA.
Mas qual a sonoridade disparada pelo conjunto de canções, adsons para adjetos? São diversos os caminhos, do jingle ao choro e frevo, do côco ao blues, samba e salsa. Não há limites – e de fato, não importa – para a experimentação de gêneros: cabe aqui de tudo, em seus formatos e misturas. Pois as formas musicais são quase que pretextos para a intervenção pretendida. Regra seria a presença constante de um “humor subliminar”, seja na letra da canção, na sequência harmônica inesperada ou na vocalização do texto, com suas falas assinaladas. Por remeter ao universo de objetos perversos, cada canção flutua livremente nesse endereçamento de si para si (objeto, som) – e aí é preciso reescrever as palavras de Dacosta: “a música com sua musculatura etérea e o objeto com sua sólida atmosfera se intercombinam nesse espaço entre, nesse lapso chamado pensamento”: fazer saltar o riso no intervalo, no lapso, evitando cristalizar-se e ser mais um sólido qualquer nas prateleiras do supermercado da cultura – portanto, produzir faísca, fricção.
Se as modalidades de ação da música popular são tomadas como modelo, é porque aí se configura uma forma de ação direta, estratégica, onde várias frentes se articulam, pólo de convergência, centrífugo – mas capaz de reunir em torno dinâmica poética de alta difusão potencial. Em tais ondas, se espalha o refrão “M.I.I. - Movimento Íntimo Infinito” [movimento íntimo infinito], plataforma AD/AD propagadora dos processos de uma microação perceptiva, artista em contra-imagem. Ou seja: sempre em fuga, em desvio, configurando uma política do “lapso chamado pensamento”.
Alexandre Dacosta é personagem fundamental no redesenho da imagem do artista na arte brasileira pós-80, em sua demarcação consciente de uma performatividade dessa imagem (talento pós-mídia): provoca, pois, uma recepção pública mais complexa e desestabilizadora, ao promover ações em campos, gêneros e áreas contíguas – para ele, não há sentido advogar por qualquer adjetolândia artificial e falsamente consagradora, já que também atuar como artista requererá, sempre, a encenação em camadas de um jogo intenso, próximo do fogo”.

Ricardo Basbaum é Artista, Curador, Professor e Crítico de arte


Paulo Herkenhoff (2010) 

“Polissêmico e multidisciplinar, Alexandre é pintor, objetualista, performer, artista intermídia e performático, assistente de câmera, ator, músico, diretor musical. Sua ação polivalente opera em chave tríplice: embaralhamento de múltiplos campos da arte, polissemia sobre trabalhos individuais e articulação de objetos díspares. A pintura da série Tabela de Cor (2010) e o objeto Xipoca (1993-2008) da série Adjetos, revelam a vontade plural que caracteriza sua produção plástica já no início da trajetória. Ele participou da mostra “Como Vai Você Geração 80?”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro (1984). Nos anos 80, exerce intensa atividade experimental que diverge da tirania da pintura da época e se diverte com ela. A contrapelo, opera uma fina ironia da febre de pintar. Contra os excessos solipsistas da pintura hedonista que despolitiza o signo material num período de anistia geral do terrorismo de Estado no Brasil, Alexandre se articula em ações coletivas. Em 1983, formou o grupo 6 Mãos com Ricardo Basbaum e Barrão e depois, em 1985, o grupo 8 pés, responsável por intervenções em vernissages. Grupo aqui não é estratégia de poder, mas uma forma de morte do autor, que conota um viés barthesiano, em tática da contracultura."Sua performance Improviso para Pintura e Música (1983) imbrica linguagens.
“Tenho um filho”, já observava Maria Leontina, “ele é até muito dotado assim pra desenho, muito musical”. Improviso para Pintura e Música remete à proclamação-chave de Hélio Oiticica – “o q faço é música”. Ademais, essa integração entre o campo expressivo de dois sentidos reintegra a individualidade do artista contra uma possível cisão entre as artes de sua afinidade. O esforço é, pois, embaralhar o sensorial e contaminar as linguagens de sua eleição. É com os Adjetos (1987) que Alexandre ultrapassa a gramática de Maria Leontina e Milton Dacosta para constituir sua própria linguagem do heteróclito, do desconforme e do heterotópico. Não se trata de encontro insólito de partes, espécie do surreal, mas tampouco as coisas se organizam como o bestiário de animais de Jorge Luis Borges numa lógica impossível de se pensar.
Detectado em suas estrepolias, o objeto continua a ativar o imaginário. Sua perversidade está em apaziguar o olhar com uma aparente justeza de design e associação que, no entanto, prepara o estranhamento com o oposto: a disfuncionalidade.
Os Adjetos são objetos da ordem que Michel Foucault classificou como sendo “sem lei nem geometria”, pois o código visual das coisas se reporta a As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Os Adjetos sempre desocultam uma “irrazão”.

Paulo Herkenhoff, Curador do MAR


Frederico Morais (1996) 

“Alexandre Dacosta nasceu no berço dourado da melhor pintura brasileira pós-1950, filho que é de dois pintores notáveis, Milton Dacosta e Maria Leontina. Ambos exerceram e ainda exercem considerável influência na arte brtasileira. A de Milton, ainda por ser estudada mais aprofundamente, a de Leontina, já bem visível, na medida que ela é uma das fundadoras da geometria sensível, desdobramento do neo-concretismo carioca.
Seria, portanto razoável, pensar que Alexandre Dacosta, ao assumir plenamente sua condição de artista, iria optar também pela pintura. E mais do que isso, sua pintura seria uma síntese entra o “classicismo” do pai e um certo “goticismo” da mãe, uma síntese entre cálculo e emoção, entre ordem e aparente desordem, entre a reta precisa de um e a linha trêmula e irregular do outro. A previsão da crítica é que a pintura seria sua meta / seu destino, e, neste caso, tudo mais seria considerado dispersão, perda de tempo e de energia.
Ledo engano, diria um espírito parnasiano. A crítica equivocou-se redondamente. E isto, quem sabe, se deve ao fato de que o crítico de arte, muitas vezes, quer ser o pai-patrão,  ditando normas de comportamento, indicando caminhos, desenhando perspectivas que são mais desejos seus do que vontade do artista
Alexandre Dacosta é ótimo pintor, com uma compreensão precisa da cor e do espaço. Ninguém duvida disso. Mas artista full-time, com uma inquietação criadora impressionante, não quis ser apenas um ótimo pintor. Talvez Freud explique, mas não é o caso de fazer aqui especulações de ordem psicanalítica. A verdade é esta: Alexandre Dacosta é um artista de  tipo novo, pós-moderno. É um criador múltiplo, que não se deixa limitar por um único meio expressivo, uma determinada técnica ou modo de agir, por um ou dois materiais. É um artista que não quer ter um estilo, uma marca, aparentar uma coerência meramente externa. Em outros tempos, dirse-ia que ele é um artista renascentista, como se disse, por exemplo, de Burle-Marx, dono de tantos saberes e fazeres. Mas chamá-lo assim, seria um equívoco, porque de certa maneira, o que Dacosta contesta, com sua prática criativa, com seu ecletismo criador, é exatamente o mito do grande artista, da grande arte.
Alexandre Dacosta tem sido atraído, simultâneamente, pelas artes plásticas, pela música (é compositor e letrista, com discos na praça, algumas faixas até fazendo sucesso de público), pelo cinema  (à frente da câmera, como ator, e atrás, como assistente de direção), pelo rádio (até recentemente tinha um programa maluco, alta madrugada, numa emissora carioca), pelo teatro e principalmente pelas performances - que são uma forma de teatro interior das artes plásticas. Primeiro, formando com Basbaum, a “dupla especializada”, em seguida com Basbaum e Barrão, o “grupo seis mãos”, com os quais realizou “improvisos para pintura e música”, e finalmente, com sua mulher, formando uma dupla impagável Claymara Borges e Heurico Fideles, que em shows, exposições, publicações, discos, kits publicitários, etc, vem fazendo uma crítica devastadora à cultura de massa e à sociedade de consumo, “criando simulacros de realidade como alternativa de ação sobre esta mesma realidade.
Consumir o consumo, dizia Helio Oiticica, mas Claymara e Fideles tornaram-se uma realidade tão forte em suas vidas e em sua arte, que como diz o ditado popular, o feitiço ameaça a virar contra o feiticeiro, e o que era simulacro ganhou foros de realidade.
Alexandre Dacosta foi sempre um contestador e um provocador, guardando em sua obra bastante daquele espírito anárquico dos dadaístas e fluxistas. Brinca, com a maior seriedade, inclusive nas obras que compõem essa exposição, no Paço Imperial, Dacosta “retomou” a pintura, ou melhor,  voltou a se interessar por algumas questões que dizem respeito à pintura. Ou a esta forma meio híbrida e deslizante de pintura - o quadro - objeto.
A pintura como uma espécie de performance que se imobiliza momentaneamente. Alguns quadros, com efeito, se assemelham à máquinas - seriam as tais “máquinas celibatárias” de Duchamp? - ou de simulações de pintura, com barras de sabão caseiro substituindo a escala cromática dos fotógrafos, a moldura, desfeita, rompendo a ortogonalidade do suporte, chapas metálicas e óleos industriais substituindo as matérias e texturas da pintura tradicional, etc. A pintura está de volta. Ou novamente, de saída?”.

Frederico Morais é Crítico de Arte


VITÓRIA DA PINTURA  EXPOSIÇÃO PURO GESTO / Frederico Morais (1986)

“A vocação de Alexandre Dacosta para a pintura é irresistível. Ele é um pintor nato e esta exposição não deixa qualquer dúvida sobre isto. Espero, aliás, que esta exposição signifique sua rendição final à pintura".
Isto que acabei de dizer poderá parecer estranho a algum visitante, mas não, certamente, ao expositor. Por que? Tenho a impressão que nestes últimos anos, Alexandre Dacosta lutou desesperadamente contra seu talento e vocação. O que é explicável. Filho de dois pintores notáveis, com presença irremovível na história da arte moderna brasileira, Milton Dacosta e Maria Leontina, viveu sempre cercado de pintura. Natural, portanto, que por uma compreensível reação psicológica, tenha lutado contra a pintura, buscando outros meios de expressão, como o teatro e a música. Mas, optou de início, por uma linha provocativa e questionadora em arte, discutindo o próprio funcionamento do circuito de arte, da autoria aos vernissages. Insatisfeito ainda, formou duos, trios, realizando trabalhos coletivos diante do público, as vezes juntando pintura, música e performence. Tudo isso para tentar apagar, nele, a irresistível atração pela pintura ou fechar o inevitável caminho a uma pintura só dele, impressa, nela, sua marca individual. Em vão. Eu senti sua derrota na exposição que realizou ano passado na galeria do IBEU, juntamente com Ricardo Basbaum, seu companheiro de muitas aventuras nestes últimos anos. Comentando aquela exposição, afirmei que era tempo, já, de Alexandre Dacosta decidir-se claramente pela pintura, evitando dispersar-se em várias outras atividades criativas.
A verdade é que Alexandre Dacosta vai encontrando seu caminho como pintor e afirmando sua originalidade, superando as inevitáveis influências domésticas. O caminho que escolheu é o da arte construtiva, mas em sua variante brasileira e latino americana: a geometria sensível. Razão e emoção, cálculo e intuição, previsão e espontaneidade se equilibram em sua pintura, resultando em trabalhos ao mesmo tempo inteligentes e sensíveis. Alexandre manipula criativamente um vocabulário construtivo, contrapondo planos de cor, que se sobrepõem, dinamizando o espaço, com manchas e grafismos que apenas insinuam formas geométricas. Nele a geometria nunca é ostensiva, as linhas são imprecisas, as cores frequentemente surdas, guardando um certo intimismo. Nada é brusco em sua pintura, nenhuma passagem de cor ou plano se faz com violência. Enfim, usa com parcimônia os ricos e variados recursos de que dispõe revelando uma surpreendente maturidade, tendo em vista sua juventude”.

Frederico Morais é Crítico de Arte 
Exposição - Petit Galerie


Mirian Ash (1989)

[1989] Bendita palavra. A visualidade dos cantos. Som sugado no ar. Odor. Contém-póro aberto às guias de avesso. Diversidade dinvertida continuamente. Material descolar no início do ano cartesiano. O moderno freiou no Impala, derrapou no Corvette e estagnou no Kadette. O apóstolo corrupto pós-M reza, ora. Invisibilidade contemporânea, névoa aparente embassa embalsamando o sujeito-objeto direto. O puro gesto transparentemente na procura. A macumbaria de Alexandre Dacosta trilha a construção de acordes dissonantes e escalas monocromáticas. Resgatando timbres díspares, cria tensões harmônicas e melódicas com peças originais industriais isoladas. Invoca todos os santos num movimento circular. Dacosta, em suma, está precisando urgentemente usar óculos. Confira.

Mirian Ash é poeta e Crítica de Arte


A ÍNDOLE DAS REGRAS / Mirian Ash (1996)

[1996] Nestas pinturas de 1996, Alexandre Dacosta utiliza a cor em toda sua gama elástica, divergindo do monocromatismo de seus quadros anteriores (melhor para os fotógrafos). Seu trabalho sempre sorri sutilmente como Monalisa para a história da arte. É o que vemos também nas três esculturas-relevos materializadas com barras de sabão, ferro, borracha, vidro e água - séries iniciadas em 1990 - paralelas que se encontram numa geometria metafísica e nos comentários de uma escala de cor inserida na própria tela ou nos matizes espectrais das barras de sabão.
A obra de AD tem o humor e a inteligência que vemos no ator AD e a poesia melódica e atonal que escutamos no compositor e cantor AD. A princípio parecem vários artistas, cada um na sua específica função. Após uma anatomização crítica, vemos o retrato-falado de um ser único, desdobrando-se em diversos heterônimos, como o mercúrio, líquido denso e fascinante, amálgama venenoso de temperatura eclética, que não perde sua essência sensível mesmo na infinita parte ínfima. E é nesta perícia plena de curiosidade que encontramos um artista contemporâneo, onde as regras são desajustadas e as réguas ilimitadas.

Mirian Ash é Poeta e Crítica de arte


ALEXANDRE DACOSTA EXPÕE OBJETOS TEATRAIS NA GALERIA SUBDISTRITO, Marco Veloso (1989)

A exposição “Adjetos” apresenta ao público paulistano um pouco do resultado dos últimos dois anos de atividade do artista carioca Alexandre Dacosta, 30. A mostra reúne 20 trabalhos. Alexandre, mantendo a tradição da vanguarda artística carioca, não gosta do termo objeto, preferindo chamar seus trabalhos de adjetos. Com isto, pretende explicitar o seu método de trabalhar pela soma e adição de objetos.
A atividade de Alexandre Dacosta se extende por diversos campos artísticos e dificilmente caberia numa ou noutra disciplina estética. Além de artista plástico, Alexandre também tem trabalhado como ator e músico, interessando-o a contínua síntese e expansão dos seus meios de expressão.
A exposição da Subdistrito evidencia, logo de saída, a busca inacabada de Alexandre, pelo contorno de sua atividade, ao mesmo tempo em que permite o contato com uma obra de grande potencial. Em termos bem genéricos, pode-se perceber quase um estilo em consolidação. Estilo baseado na teatralidade do gesto artístico de acrescentar objetos uns aos outros.
Para o público, o efeito mais sensível da teatralidade presente nos objetos de Alexandre Dacosta reside no humor implicado no contato com cada obra. Humor ao qual só se chega após a reconstituição de cada adjeto, através de uma interrupção do contato sensível com a própria obra. É como se a graça de cada trabalho só se manifestasse na e pela passagem do tempo.
Nesta operação, o elemento teatral, que esteve na origem e fabricação dos adjetos, revela-se como a insinuação de um paradoxo que só se pode enunciar pela muda presença de um objeto. Um paradoxo nada mais é do que um resultado sem sentido de uma conjunção entre elementos que perderam o senso de realidade. Aliás, um objeto está para um objetivo assim como um adjeto está para o adjetivo. Deste modo, “Dança da Chuva”, um pequeno e elegante “pára-raio caseiro” que poderia estar em qualquer casa, é, muitas vezes, imaginado por Dacosta no centro de uma sala de cenário, durante um diálogo entre um homem e uma mulher. Marco Veloso, crítico de arte.

Marco Veloso é Artista
Folha de São Paulo    


ANTIMÁQUINA DO PRAZER/ Reynaldo Roels Jr. (1987)

Pode ser que, antes mesmo da noção de antimáquina do prazer, venha à cabeça a sensação de máquina do antiprazer: três barras de manteiga, meio amolecidas pelo calor tropical, e um pequeno objeto coberto (protegido) por uma camisa-de-vênus trazem à mente situações que poderiam condicionar de antemão a leitura do trabalho. A escultura / objeto, ou “adjeto”, como chamou seu autor, Alexandre Dacosta, na sua exposição da Artespaço -não se limita apenas a isso: há ainda um ovo sobre um vaso, uma barra de sabão de coco, outra de sapólio e tubos cirúrgicos, tudo isto servido numa pequena vitrine de botequim.
Depois de pouco tempo, contudo, nota-se que não chega a ser relevante tomar uma decisão a favor do antiprazer ou da antimáquina. Os adjetos de Dacosta são ambos, assim como são ambos todos os outros adjetos da mostra, do Dielectronhidromômetro EH 203, uma máquina cujo peso paradoxalmente não respeita a lei da gravidade e atrai para o alto, na ponta de uma agulha repugnante mas fascinante, até a série aparentemente inofensiva Desenho também és cultura, um trocadilho que encobre o fio das giletes coladas sobre lixas.
Alexandre é um artista que, aparentemente, ainda não foi capaz de se deter em nenhum problema específico. Ele já mostrou pinturas, já fez performances, instalações e, ainda por cima, pode de repente aparecer em uma representação teatral ou um show de música.
A dispersão parece total. Parece, mas pode não ser, se ao final de um certo percurso ela apresentar uma coerência subjacente à diversidade. Aliás, é exatamente quando Alexandre parece mais disperso que ele se torna mais interessante - as suas pinturas, por exemplo, são quase plácidas se comparadas às suas performances ou à atual exposição. (O que não quer dizer que ele não pinte bem, ao contrário. Filho de Milton Dacosta e Maria Leontina, ele não poderia sofrer de falta de sensibilidade retínica).
Os “adjetos” de Alexandre nascem da antiarte - de um lado, da antiarte histórica, das vanguardas modernas do início do século, de Duchamp, Mann Ray e outros, e de outro lado da antiarte que ele institui quando se recusa a seguir uma trajetória convencional: o antiartista. Uma sucessão de “antis”. Antimáquina, antiprazer, antiarte, antiartista. Ao final, poderia ser acrescentado mais um anti, o anti-hedonismo, já que ele se comporta de maneira oposta aos que adotaram para si a ideologia do prazer da pintura: um breve contra a luxúria da tinta, assim como seus “adjetos” são breves contra a luxúria da arte.
Mas, afinal, eles acabam por estabelecer um paradoxo difícil de resolver: a sua imperiosidade de presença nega a negação que eles fazem. A negação da negação como na dialética? A síntese final? É arriscado tentar uma resposta nesta mostra: Alexandre não parece estar querendo dar a palavra final por enquanto e, provavelmente, ainda vai prosseguir por algum tempo sem se deter, para não se contradizer. As consequências (artísticas tanto quanto intelectuais) de seu trabalho só vão aparecer depois.

Reynaldo Roels Jr. é Curador e Crítico de Arte
Jornal do Brasil


A COR EM EXPANSÃO / Reynaldo Roels Jr (1986)

Alexandre Dacosta, 27 anos, é artista plástico, músico e ator de teatro. Em artes plásticas, ele é imediatamente identificado com a Geração 80, ao lado da qual vem atuando desde a explosão do movimento. Mas seu trabalho difere sensivelmente do modelo ao qual o público costuma associar à pintura da Geração 80, invariavelmente imaginada comogestual e violentamente expressiva. Ao contrário do que sugere o título de sua individual na Petite Galerie, Puro Gesto, Alexandre Dacosta soube alimentar seu trabalho com elementos cuidadosamente amadurecidos, sem se prender à forma que todos esperam da última onda de pintura. Alexandre considera-se autodidata, apesar de ter frequentado alguns cursos de pintura.
Suas telas demonstram um nível de refinamento visual que nega o autodidatismo. Não se trata somente de um talento espontâneo, mas de uma capacidade de absorver a informação visual e reprocessá-la na tela dando significado a uma experiência acumulada sem pressa. Dos seus grafismos antigos, sobram apenas pequenas figuras geométricas cuidadosamente construídas nos cantos da tela. De resto, sua grande preocupação é fazer a cor vibrar na superfície do suporte, colocadas em grandes áreas planas e sem enfatizar muito a pincelada
Nos trabalhos maiores , a relação entre o espectador e a obra deixa de se dar apenas ao nível do olho, tornando-se quase corporal: a cor se expande pelo espaço à sua volta e envolve o corpo inteiro, como uma parede que vibra
Já a pouca preocupação de Alexandre em seguir o padrão pré-fixado para sua geração indica que não se trata de mais um artista que adere à moda, aparece por um momento e sai de circulação. A evolução de seu trabalho não foi meteórica, mas pensada e segura. O que mais se destaca na sua exposição é a seriedade com que ele trabalha, sem querer realizar uma obra que se dilua após o primeiro impacto. São telas tranquilas, em que o importante é a qualidade do seu pensamento artístico, vivendo a pintura não segundo a moda ou de acordo com um esquema comercial, mas de acordo com que considera relevante na questão. Reynaldo Roels, crítico de arte. 

Reynaldo Roels Jr. 
Jornal do Brasil